Em fevereiro de 1945, nos últimos meses da
Segunda Guerra Mundial, ocorreu um episódio histórico e único na costa da
Noruega: o único combate submarino versus submarino em que ambos os barcos
estavam submersos durante o ataque.
O submarino alemão U-864, um Type IXD2 de
longo alcance, partiu de Bergen em 5 de fevereiro na chamada Operação César,
uma missão secreta para levar suprimentos vitais ao Japão, aliado do Eixo.
A bordo, levava cerca de 67 toneladas de
mercúrio metálico (armazenado em aproximadamente 1.857 frascos de aço), planos
e componentes para caças a jato alemães (como o Messerschmitt Me 262 e o Me
163), partes de motores de aeronaves e três engenheiros alemães especializados.
No dia 9 de fevereiro, próximo à ilha de
Fedje (a cerca de 150 metros de profundidade), o U-864 foi detectado pelo
submarino britânico HMS Venturer, da Royal Navy.
Usando apenas hidrofones (sem contato
visual), o comandante britânico James "Jimmy" Launders calculou a
posição, velocidade, curso e profundidade do inimigo em três dimensões - uma
façanha de navegação e matemática submarina.
Ele lançou quatro torpedos em um padrão de
interceptação calculado, com intervalos de 17,5 segundos e em profundidades
ligeiramente diferentes para aumentar as chances de acerto.
O U-864, que navegava em zig-zag evasivo e
usava o snorkel (mas estava submerso), ouviu os torpedos se aproximando. Tentou
manobrar, mas sua lentidão ao retrair o snorkel, desligar os motores diesel e
ligar os elétricos o prejudicou.
Os três primeiros torpedos foram evitados,
mas o quarto acertou em cheio o submarino alemão, que explodiu, partiu-se em
duas grandes seções e afundou imediatamente, levando todos os 73 tripulantes a
bordo.
O naufrágio permaneceu desconhecido por
décadas. Somente em março de 2003, a Marinha Real Norueguesa localizou os
destroços a cerca de 150 metros de profundidade, a dois milhas náuticas a oeste
da ilha de Fedje, perto de Bergen.
As investigações revelaram a carga tóxica: os
frascos de aço com mercúrio começaram a corroer com o tempo, liberando o metal
pesado no sedimento marinho.
Estima-se que cerca de 4 kg de mercúrio vazem
anualmente para o ambiente, contaminando aproximadamente 30.000 m² de fundo do
mar e afetando a vida marinha local.
Logo após a descoberta, a área foi declarada
zona restrita, proibindo pesca, mergulho e navegação próxima. Testes regulares
em peixes e crustáceos da região são realizados pela Autoridade Norueguesa de
Segurança Alimentar para garantir a segurança do consumo.
O debate sobre o destino do naufrágio persiste
há mais de 20 anos. Inicialmente, o Governo Norueguês considerou opções como
levantar todo o submarino (muito arriscado devido a torpedos não explodidos e
risco de explosão), mas planos de salvamento foram adiados ou cancelados por
custo e perigo.
Em 2018-2019, houve decisões para selar
(enterrar) o naufrágio e o sedimento contaminado com areia, rochas e materiais
de contenção, estabilizando também a encosta submarina instável onde o
submarino repousa.
No entanto, a solução de simples cobertura
foi contestada por moradores locais, organizações ambientais (como a Associação
Norueguesa de Proteção Ambiental) e alguns especialistas, que argumentam que
não é suficiente para impedir vazamentos a longo prazo e exigem a remoção do
mercúrio acessível.
Atualizações recentes (até 2024-2025) indicam
que o governo norueguês revisou a abordagem: planeja recuperar as partes
acessíveis do mercúrio em 2026, antes de prosseguir com a cobertura do restante
do naufrágio e da área contaminada.
Operações completas de remoção total
continuam descartadas devido aos riscos de explosão, instabilidade do fundo do
mar e altos custos. A Administração Costeira Norueguesa (Kystverket) monitora
continuamente o local com veículos operados remotamente (ROVs), mapeamento
acústico e modelos 3D, enquanto o sedimento ao redor já foi parcialmente
estabilizado com contrafill (enchimento de contenção).
Esse caso permanece um exemplo complexo de como relíquias da Segunda Guerra Mundial continuam a gerar desafios ambientais décadas depois, equilibrando preservação histórica, segurança e proteção do ecossistema marinho.









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