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segunda-feira, março 09, 2026

Submarino Alemão


Em fevereiro de 1945, nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, ocorreu um episódio histórico e único na costa da Noruega: o único combate submarino versus submarino em que ambos os barcos estavam submersos durante o ataque.

O submarino alemão U-864, um Type IXD2 de longo alcance, partiu de Bergen em 5 de fevereiro na chamada Operação César, uma missão secreta para levar suprimentos vitais ao Japão, aliado do Eixo.

A bordo, levava cerca de 67 toneladas de mercúrio metálico (armazenado em aproximadamente 1.857 frascos de aço), planos e componentes para caças a jato alemães (como o Messerschmitt Me 262 e o Me 163), partes de motores de aeronaves e três engenheiros alemães especializados.

No dia 9 de fevereiro, próximo à ilha de Fedje (a cerca de 150 metros de profundidade), o U-864 foi detectado pelo submarino britânico HMS Venturer, da Royal Navy.

Usando apenas hidrofones (sem contato visual), o comandante britânico James "Jimmy" Launders calculou a posição, velocidade, curso e profundidade do inimigo em três dimensões - uma façanha de navegação e matemática submarina.

Ele lançou quatro torpedos em um padrão de interceptação calculado, com intervalos de 17,5 segundos e em profundidades ligeiramente diferentes para aumentar as chances de acerto.

O U-864, que navegava em zig-zag evasivo e usava o snorkel (mas estava submerso), ouviu os torpedos se aproximando. Tentou manobrar, mas sua lentidão ao retrair o snorkel, desligar os motores diesel e ligar os elétricos o prejudicou.

Os três primeiros torpedos foram evitados, mas o quarto acertou em cheio o submarino alemão, que explodiu, partiu-se em duas grandes seções e afundou imediatamente, levando todos os 73 tripulantes a bordo.

O naufrágio permaneceu desconhecido por décadas. Somente em março de 2003, a Marinha Real Norueguesa localizou os destroços a cerca de 150 metros de profundidade, a dois milhas náuticas a oeste da ilha de Fedje, perto de Bergen.

As investigações revelaram a carga tóxica: os frascos de aço com mercúrio começaram a corroer com o tempo, liberando o metal pesado no sedimento marinho.

Estima-se que cerca de 4 kg de mercúrio vazem anualmente para o ambiente, contaminando aproximadamente 30.000 m² de fundo do mar e afetando a vida marinha local.

Logo após a descoberta, a área foi declarada zona restrita, proibindo pesca, mergulho e navegação próxima. Testes regulares em peixes e crustáceos da região são realizados pela Autoridade Norueguesa de Segurança Alimentar para garantir a segurança do consumo.

O debate sobre o destino do naufrágio persiste há mais de 20 anos. Inicialmente, o Governo Norueguês considerou opções como levantar todo o submarino (muito arriscado devido a torpedos não explodidos e risco de explosão), mas planos de salvamento foram adiados ou cancelados por custo e perigo.

Em 2018-2019, houve decisões para selar (enterrar) o naufrágio e o sedimento contaminado com areia, rochas e materiais de contenção, estabilizando também a encosta submarina instável onde o submarino repousa.

No entanto, a solução de simples cobertura foi contestada por moradores locais, organizações ambientais (como a Associação Norueguesa de Proteção Ambiental) e alguns especialistas, que argumentam que não é suficiente para impedir vazamentos a longo prazo e exigem a remoção do mercúrio acessível.

Atualizações recentes (até 2024-2025) indicam que o governo norueguês revisou a abordagem: planeja recuperar as partes acessíveis do mercúrio em 2026, antes de prosseguir com a cobertura do restante do naufrágio e da área contaminada.

Operações completas de remoção total continuam descartadas devido aos riscos de explosão, instabilidade do fundo do mar e altos custos. A Administração Costeira Norueguesa (Kystverket) monitora continuamente o local com veículos operados remotamente (ROVs), mapeamento acústico e modelos 3D, enquanto o sedimento ao redor já foi parcialmente estabilizado com contrafill (enchimento de contenção).

Esse caso permanece um exemplo complexo de como relíquias da Segunda Guerra Mundial continuam a gerar desafios ambientais décadas depois, equilibrando preservação histórica, segurança e proteção do ecossistema marinho. 



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