Por tudo isso, torna-se difícil acreditar
plenamente na bondade inerente do ser humano. E, para muitos, é ainda mais
difícil acreditar em um Deus que assiste a tudo isso em silêncio. Afinal, quem
projeta e executa algo tão fracassado, degradante e desumano como aquilo que a
humanidade foi capaz de produzir ao longo da história?
Que tipo de
“criador” permitiria tamanha barbárie? Essa pergunta acompanha filósofos,
teólogos e pensadores há séculos. E basta olhar para certos episódios da
história recente para compreender por que ela continua sendo feita.
Uma fotografia
emblemática tirada em 1958, na Bélgica, durante a Exposition Universelle de Bruxelles (Expo 58),
ilustra de forma chocante essa desumanização.
Na imagem, vemos
uma criança negra - provavelmente originária do então Congo Belga - posicionada
atrás de uma cerca de bambu, enquanto famílias brancas europeias observam.
Algumas estendem bananas, moedas ou comida,
como se alimentassem um animal em um zoológico comum. A cena parece absurda
hoje, mas naquele momento era tratada como entretenimento.
A fotografia foi
registrada no chamado Village Congolais (Expo 58),
a chamada “Aldeia Congolesa”, uma das atrações da feira mundial. Esse episódio
é frequentemente lembrado como um dos últimos grandes
exemplos documentados de “zoo humano” na Europa.
Esses eventos
também eram conhecidos como “exposições etnológicas”, “vilas indígenas” ou
“Kongorama”. Neles, pessoas provenientes de territórios colonizados eram exibidas
em cenários artificiais que simulavam seus ambientes “naturais”. O objetivo era
entreter e, ao mesmo tempo, reforçar no imaginário europeu a suposta
superioridade da civilização ocidental.
Durante a Expo
58, mais de 598 congoleses, incluindo cerca de
200 crianças, foram levados à Bélgica. Eles viviam em uma área de
aproximadamente três hectares decorada como “jardins tropicais”, vestidos com
trajes considerados “tradicionais” e realizando atividades cotidianas diante
dos olhares curiosos - e muitas vezes humilhantes - dos visitantes.
O tratamento era
frequentemente degradante. Relatos da época descrevem espectadores jogando
bananas e moedas por cima da cerca, tentando provocar reações, como se
estivessem diante de uma atração exótica.
Muitos visitantes riam, apontavam e
fotografavam, reforçando a lógica colonial que via aqueles indivíduos não como
pessoas, mas como objetos de observação. Os participantes eram alojados em
condições precárias, isolados em um prédio separado, com severas restrições de
circulação e contato externo.
Com o passar das semanas, a indignação e a
resistência dos próprios congoleses começaram a crescer. Cansados das
humilhações, vários deles se recusaram a continuar participando da encenação.
Diante das
críticas e da tensão crescente, a “aldeia” foi encerrada prematuramente em
julho de 1958, meses antes do término oficial da exposição, que só acabaria em
outubro.
Essa prática, no
entanto, não era nova na Bélgica. Em 1897, durante outra grande exposição
colonial em Tervuren, organizada pelo rei Leopoldo
II da Bélgica, cerca de 267 congoleses
foram exibidos em um vilarejo africano artificial. Muitos adoeceram por causa
do clima europeu, e ao menos sete morreram de
pneumonia, incapazes de suportar o frio.
Essas exposições
eram apenas uma pequena face de um sistema muito maior de exploração. Entre
1885 e 1908, o território conhecido como Estado
Livre do Congo foi propriedade pessoal de Leopoldo II. Nesse período,
instaurou-se um regime brutal de exploração voltado principalmente para a extração
de borracha e marfim.
A população
local foi submetida a um sistema de trabalho forçado extremamente violento.
Soldados e milícias coloniais exigiam cotas de produção frequentemente
impossíveis de cumprir. Quando essas metas não eram alcançadas, punições
atrozes eram aplicadas - entre elas mutilações, espancamentos e execuções.
Um dos símbolos
mais chocantes desse regime foi a prática de amputar mãos de trabalhadores como
prova de punição ou controle de munição. Estima-se que, nesse período, milhões de congoleses tenham morrido -
vítimas de assassinatos, fome, doenças e colapso social provocado pela
exploração colonial.
As estimativas
variam amplamente entre historiadores, mas muitos apontam que a população do Congo pode ter sido reduzida pela metade
durante essas décadas.
As riquezas que
alimentaram o crescimento econômico da Bélgica - e de outras potências
europeias - vieram diretamente desse sofrimento. A borracha do Congo abasteceu
indústrias que estavam crescendo com a revolução tecnológica do final do século
XIX, incluindo a produção de pneus e equipamentos industriais.
E a Bélgica não
estava sozinha nesse processo. Outras potências coloniais europeias - como França, Reino
Unido, Portugal e Alemanha - também exploraram vastos territórios
na África e em outras partes do mundo, utilizando trabalho forçado, violência
militar e saque de recursos naturais.
O próprio Brasil, por sua vez, construiu grande parte de
sua economia colonial sobre a escravidão de africanos trazidos à força através
do Atlântico. Nada disso aconteceu em uma era distante ou incompreensível. Em
1960 - apenas dois anos após a Expo 58 - o Congo
finalmente conquistaria sua independência da Bélgica.
Ou seja, muitos
dos acontecimentos descritos aqui ocorreram há
menos de uma vida humana atrás. Há pessoas vivas hoje cujos
pais ou avós testemunharam esses episódios.
Nenhum milagre
interrompeu esse ciclo de violência. Nenhuma intervenção divina suspendeu o
sofrimento coletivo. A história seguiu seu curso movida pelas decisões humanas -
tanto pelas mãos que oprimiam quanto pelas que resistiam. E talvez seja
justamente por isso que essas histórias não podem ser esquecidas.
Elas nos obrigam
a olhar para nós mesmos com honestidade. Se uma civilização que se considerava
“avançada” foi capaz de tratar outros seres humanos dessa forma tão
recentemente, então a pergunta inevitável permanece: o
que ainda somos capazes de ignorar, justificar ou repetir hoje?
A história não
absolve ninguém. Ela exige memória, consciência e responsabilidade.









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