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domingo, março 08, 2026

Por isso não tem como acreditar no ser humano


Por tudo isso, torna-se difícil acreditar plenamente na bondade inerente do ser humano. E, para muitos, é ainda mais difícil acreditar em um Deus que assiste a tudo isso em silêncio. Afinal, quem projeta e executa algo tão fracassado, degradante e desumano como aquilo que a humanidade foi capaz de produzir ao longo da história?

Que tipo de “criador” permitiria tamanha barbárie? Essa pergunta acompanha filósofos, teólogos e pensadores há séculos. E basta olhar para certos episódios da história recente para compreender por que ela continua sendo feita.

Uma fotografia emblemática tirada em 1958, na Bélgica, durante a Exposition Universelle de Bruxelles (Expo 58), ilustra de forma chocante essa desumanização.

Na imagem, vemos uma criança negra - provavelmente originária do então Congo Belga - posicionada atrás de uma cerca de bambu, enquanto famílias brancas europeias observam.

Algumas estendem bananas, moedas ou comida, como se alimentassem um animal em um zoológico comum. A cena parece absurda hoje, mas naquele momento era tratada como entretenimento.

A fotografia foi registrada no chamado Village Congolais (Expo 58), a chamada “Aldeia Congolesa”, uma das atrações da feira mundial. Esse episódio é frequentemente lembrado como um dos últimos grandes exemplos documentados de “zoo humano” na Europa.

Esses eventos também eram conhecidos como “exposições etnológicas”, “vilas indígenas” ou “Kongorama”. Neles, pessoas provenientes de territórios colonizados eram exibidas em cenários artificiais que simulavam seus ambientes “naturais”. O objetivo era entreter e, ao mesmo tempo, reforçar no imaginário europeu a suposta superioridade da civilização ocidental.

Durante a Expo 58, mais de 598 congoleses, incluindo cerca de 200 crianças, foram levados à Bélgica. Eles viviam em uma área de aproximadamente três hectares decorada como “jardins tropicais”, vestidos com trajes considerados “tradicionais” e realizando atividades cotidianas diante dos olhares curiosos - e muitas vezes humilhantes - dos visitantes.

O tratamento era frequentemente degradante. Relatos da época descrevem espectadores jogando bananas e moedas por cima da cerca, tentando provocar reações, como se estivessem diante de uma atração exótica.

Muitos visitantes riam, apontavam e fotografavam, reforçando a lógica colonial que via aqueles indivíduos não como pessoas, mas como objetos de observação. Os participantes eram alojados em condições precárias, isolados em um prédio separado, com severas restrições de circulação e contato externo.

Com o passar das semanas, a indignação e a resistência dos próprios congoleses começaram a crescer. Cansados das humilhações, vários deles se recusaram a continuar participando da encenação.

Diante das críticas e da tensão crescente, a “aldeia” foi encerrada prematuramente em julho de 1958, meses antes do término oficial da exposição, que só acabaria em outubro.

Essa prática, no entanto, não era nova na Bélgica. Em 1897, durante outra grande exposição colonial em Tervuren, organizada pelo rei Leopoldo II da Bélgica, cerca de 267 congoleses foram exibidos em um vilarejo africano artificial. Muitos adoeceram por causa do clima europeu, e ao menos sete morreram de pneumonia, incapazes de suportar o frio.

Essas exposições eram apenas uma pequena face de um sistema muito maior de exploração. Entre 1885 e 1908, o território conhecido como Estado Livre do Congo foi propriedade pessoal de Leopoldo II. Nesse período, instaurou-se um regime brutal de exploração voltado principalmente para a extração de borracha e marfim.

A população local foi submetida a um sistema de trabalho forçado extremamente violento. Soldados e milícias coloniais exigiam cotas de produção frequentemente impossíveis de cumprir. Quando essas metas não eram alcançadas, punições atrozes eram aplicadas - entre elas mutilações, espancamentos e execuções.

Um dos símbolos mais chocantes desse regime foi a prática de amputar mãos de trabalhadores como prova de punição ou controle de munição. Estima-se que, nesse período, milhões de congoleses tenham morrido - vítimas de assassinatos, fome, doenças e colapso social provocado pela exploração colonial.

As estimativas variam amplamente entre historiadores, mas muitos apontam que a população do Congo pode ter sido reduzida pela metade durante essas décadas.

As riquezas que alimentaram o crescimento econômico da Bélgica - e de outras potências europeias - vieram diretamente desse sofrimento. A borracha do Congo abasteceu indústrias que estavam crescendo com a revolução tecnológica do final do século XIX, incluindo a produção de pneus e equipamentos industriais.

E a Bélgica não estava sozinha nesse processo. Outras potências coloniais europeias - como França, Reino Unido, Portugal e Alemanha - também exploraram vastos territórios na África e em outras partes do mundo, utilizando trabalho forçado, violência militar e saque de recursos naturais.

O próprio Brasil, por sua vez, construiu grande parte de sua economia colonial sobre a escravidão de africanos trazidos à força através do Atlântico. Nada disso aconteceu em uma era distante ou incompreensível. Em 1960 - apenas dois anos após a Expo 58 - o Congo finalmente conquistaria sua independência da Bélgica.

Ou seja, muitos dos acontecimentos descritos aqui ocorreram há menos de uma vida humana atrás. Há pessoas vivas hoje cujos pais ou avós testemunharam esses episódios.

Nenhum milagre interrompeu esse ciclo de violência. Nenhuma intervenção divina suspendeu o sofrimento coletivo. A história seguiu seu curso movida pelas decisões humanas - tanto pelas mãos que oprimiam quanto pelas que resistiam. E talvez seja justamente por isso que essas histórias não podem ser esquecidas.

Elas nos obrigam a olhar para nós mesmos com honestidade. Se uma civilização que se considerava “avançada” foi capaz de tratar outros seres humanos dessa forma tão recentemente, então a pergunta inevitável permanece: o que ainda somos capazes de ignorar, justificar ou repetir hoje?

A história não absolve ninguém. Ela exige memória, consciência e responsabilidade.



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