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domingo, novembro 08, 2026

Fatiar o tempo



Quem teve a ideia de dividir o tempo em fatias, às quais deu o nome de anos, foi, sem dúvida, um indivíduo genial. Criou uma espécie de calendário para organizar a existência humana e, sem perceber, talvez tenha inventado também uma das maiores fábricas de esperança de que se tem notícia.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Afinal, doze meses são suficientes para qualquer ser humano acumular cansaços, enfrentar decepções, experimentar perdas, cometer erros, abandonar sonhos e, em algum momento, pensar em entregar os pontos.

Mas eis que surge o último dia do ano. O calendário chega ao fim, os números mudam e acontece uma espécie de milagre coletivo: a renovação.

De repente, as pessoas voltam a acreditar. Fazem promessas, estabelecem metas, traçam planos, alimentam desejos e juram que, desta vez, tudo será diferente.

Quem estava desanimado recupera o entusiasmo; quem havia perdido a esperança encontra motivos para acreditar novamente. Até os sonhos esquecidos parecem despertar de um longo sono.

E assim começa tudo outra vez. Um novo número, uma nova contagem e a velha vontade de acreditar que os próximos doze meses serão melhores do que os anteriores.

Talvez seja essa a maior beleza da existência: mesmo após tantas quedas, ainda encontramos motivos para levantar. Mesmo conhecendo nossas limitações, continuamos fazendo planos. Mesmo sabendo que o calendário não tem poderes mágicos, depositamos nele a esperança de uma transformação.

Entretanto, há uma verdade que não podemos esquecer: o ano novo não muda a vida de ninguém por conta própria. Não apaga o passado, não corrige erros, não resolve conflitos nem realiza sonhos enquanto permanecemos de braços cruzados.

O tempo apenas passa. Somos nós que precisamos mudar, escolher novos caminhos e encontrar coragem para fazer diferente.

No fundo, o verdadeiro milagre não está na mudança dos números do calendário, mas na capacidade humana de recomeçar, mesmo quando a vida insiste em nos convencer de que já não vale a pena tentar.

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