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sábado, março 21, 2026

Amei você!...


Um Amor em Desencontro

Houve um tempo em que eu amei a fúria das suas palavras - aquelas que cortavam como lâminas afiadas, mas que, paradoxalmente, acendiam incêndios dentro de mim. Havia vida nelas. Havia verdade. E, de algum modo estranho, havia também um convite: o de crescer, de me reinventar, de tentar ser maior do que os meus próprios limites.

Amei a intensidade das suas ideias, o modo como você enfrentava o mundo sem pedir licença. Você falava como quem não tem medo de quebrar tudo - inclusive a si mesmo. E eu, que sempre temi os estilhaços, me vi fascinada por essa coragem quase imprudente.

Amei você do início ao fim - e, sobretudo, o meio. Amei os intervalos: os risos roubados no meio de conversas sérias, os silêncios carregados de significados, os olhares que diziam mais do que qualquer frase bem construída. Amei o que não era dito, porque ali morava o que mais importava.

Lembro do primeiro encontro dos nossos olhos. Não foi grandioso, não houve música ou destino declarado - mas, por um segundo, tudo pareceu suspenso. Como se o mundo tivesse respirado fundo só para nos observar.

E eu soube. Ou pensei que soubesse. Amei o arrepio que sua presença provocava, aquele frio inesperado que corria pela pele como um aviso antigo: cuidado, isso vai te mudar. Mas eu nunca fui bom em ouvir avisos.

Amei você mais do que devia - por impulso, por desejo, por falta de freio. E, ao mesmo tempo, menos do que podia - por medo. Medo de desaparecer dentro de você, de deixar de ser quem eu era para caber no espaço que você ocupava.

Você brincava de dizer verdades, escondia sentimentos atrás de ironias, como quem testa o terreno antes de se permitir cair. E eu entendia. Sempre entendi mais do que você dizia.

Amei até o seu ridículo. Porque em você, até o que era falho, exagerado ou deslocado tinha beleza. Era humano. Era real. E eu me agarrava a isso como quem encontra algo raro em meio ao caos.

Mas também houve o outro lado. O momento em que nossos olhares já não se encontravam do mesmo jeito. Quando os seus começaram a escapar - para outros lugares, outras ideias, talvez outras pessoas. E ali, naquele desencontro silencioso, algo em mim começou a ruir.

Amei o seu tudo - sua grandeza, suas promessas, sua intensidade quase insuportável. Mas também amei o seu nada - os dias em que você era ausência, vazio, um enigma que nem você parecia querer resolver.

E, mesmo assim, eu permanecia. Amava até a confusão que você deixava em mim. Meus pensamentos giravam como um redemoinho, e eu já não sabia onde você terminava e onde eu começava. Talvez nunca tenha sabido.

Houve momentos em que tentei te odiar. De verdade. Quis me afastar, criar distância, reconstruir uma versão de mim que não dependesse de você. Mas era inútil. Porque, no fundo, havia algo inevitável nisso tudo - como se te amar fosse menos uma escolha e mais uma condição.

E isso me assustava. Nosso amor não existia isolado. Ele acontecia enquanto o mundo também desmoronava e se reconstruía ao nosso redor.

Eu te amei nas noites de tempestade, quando o céu parecia refletir exatamente o que eu sentia por dentro - caótico, barulhento, impossível de ignorar. Os trovões ecoavam como um coração fora de ritmo.

Te amei em 2020, quando o mundo parou. Quando fomos obrigados a nos afastar fisicamente, mas insistíamos em nos encontrar em telas pequenas, em mensagens apressadas, em ligações que caíam no meio de algo importante. Havia saudade até no silêncio da conexão instável.

Te amei nos dias de protesto, quando sua voz ganhava força, quando suas ideias viravam bandeiras. Eu te via lutar, e isso me fazia te amar ainda mais - mesmo quando eu sabia que, no meio dessa luta, talvez não houvesse espaço para nós dois.

Te amei também nos momentos de pausa. Nos dias em que o mundo chorava perdas coletivas, quando a fragilidade da vida deixava tudo mais urgente e mais pesado. E, curiosamente, mais verdadeiro.

E te amei nas pequenas vitórias: um sorriso inesperado, uma conquista simples, um instante de paz em meio ao caos. Tudo ao nosso redor parecia amplificar o que sentíamos. Mas o amor, assim como o desencontro, não é feito só de beleza.

Ele também cansa. Também exige. Também quebra. Amei você quando estávamos juntos - mas também quando estávamos distantes. Quando a ausência pesava mais do que a presença, quando o silêncio dizia o que nenhum de nós tinha coragem de admitir.

Amei você mesmo quando o mundo nos puxava para direções opostas.
Quando escolhas precisavam ser feitas. Quando crescer significava, inevitavelmente, se afastar.

E talvez o nosso maior desencontro tenha sido esse: descobrir que o amor, por mais intenso que seja, nem sempre é suficiente. Éramos como duas estrelas brilhando com força - mas em constelações diferentes. Visíveis um para o outro, mas impossíveis de tocar.

Ainda assim, esse amor… não foi em vão. Ele foi um farol. Me ensinou a sentir de um jeito que eu nunca tinha sentido antes. Me ensinou que amar não é sobre certezas, mas sobre coragem. Que existe beleza até nas contradições, até no que não dá certo.

Amei você. E talvez ainda ame. Mas agora de outro lugar - mais silencioso, mais distante. Um lugar onde a memória guarda o que o tempo não conseguiu sustentar.

E, de algum modo, é ali - nesse espaço invisível - que, finalmente, corpo e alma se encontram. Sem urgência. Sem medo. Sem desencontro.

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