Mário Pais de Oliveira, mais
conhecido como Padre Mário de Oliveira ou Padre da Lixa, nasceu em Lourosa,
concelho de Santa Maria da Feira, a 8 de março de 1937. Foi presbítero,
filósofo, teólogo, jornalista e escritor português.
Ordenado sacerdote na Igreja
Católica, afastou-se progressivamente da ortodoxia institucional,
identificando-se com o Jesuísmo - corrente que privilegia a mensagem ética,
social e libertadora de Jesus de Nazaré, dissociando-a das estruturas dogmáticas
e hierárquicas do catolicismo romano.
Ficou conhecido sobretudo pela
sua postura crítica e interventiva durante a ditadura do Estado Novo, numa
época em que grande parte do clero português se mantinha alinhada ou silenciosa
perante o regime.
Antes da Revolução de 25 de
Abril de 1974, Padre Mário denunciou publicamente a Guerra Colonial,
considerando-a injusta, imoral e contrária ao Evangelho. Essa posição valeu-lhe
perseguição pela PIDE/DGS, a polícia política do regime, e levou-o a ser julgado
duas vezes em Tribunal Plenário, instrumento judicial usado para reprimir
opositores políticos.
Exerceu funções como professor
de Religião e Moral no Liceu Normal D. Manuel II, no Porto. Posteriormente, foi
enviado como capelão militar para a guerra colonial, experiência que marcou
profundamente o seu percurso.
No contacto direto com
soldados portugueses e populações locais, confrontou-se com os dramas humanos
da guerra, a violência estrutural do colonialismo e o sofrimento psicológico
dos combatentes, reforçando a sua oposição ao conflito e à lógica imperial do
regime.
Quando foi levado a tribunal
durante a ditadura, recebeu inicialmente apoio de vastos setores progressistas
da Igreja Católica, de intelectuais e de movimentos democráticos. Contudo, esse
apoio esbateu-se quando as suas posições teológicas e políticas passaram a ser
consideradas demasiado heterodoxas.
O então bispo do Porto, D.
António Ferreira Gomes, figura ele próprio conhecida pela oposição ao Estado
Novo, acabou por lhe retirar a paróquia de Macieira da Lixa, sinal claro do
isolamento institucional a que Padre Mário foi votado dentro da hierarquia
eclesiástica.
Apesar disso, manteve ao longo
da vida uma ligação consistente a meios progressistas, ecuménicos e críticos,
tanto dentro como fora da Igreja Católica. A sua reflexão teológica, filosófica
e política aproximou-o cada vez mais do Jesuísmo, afastando-o do clericalismo,
do culto mariano tradicional e da teologia dogmática.
Destacou-se igualmente pela
sua intensa atividade como jornalista, sendo diretor do jornal Fraternizar,
publicação de inspiração cristã libertadora, que continua a ser editada e que
serviu como espaço de denúncia social, reflexão política e crítica eclesial.
A comunidade que dirigiu em
Lourosa e na região da Lixa teve um papel relevante na solidariedade
internacional, particularmente no apoio aos processos de democratização na
América Latina.
Durante as décadas de 1970 e
1980, período marcado por ditaduras militares violentas em vários países
latino-americanos, promoveu ações de denúncia, informação e apoio a movimentos
populares e cristãos de base, em sintonia com a Teologia da Libertação.
Em abril de 1999, publicou em
Portugal, pela Editora Campo das Letras, o livro Fátima nunca mais, obra
que provocou forte polémica e alcançou oito edições em apenas doze meses.
No livro, Padre Mário de
Oliveira procura desconstruir o mito das aparições de Fátima, apresentando
argumentos históricos, psicológicos e sociológicos que, segundo o autor,
desmentem a natureza sobrenatural dos acontecimentos de 1917.
Sustenta que a utilização de Jacinta
Marto, Francisco Marto e Lúcia de Jesus dos Santos como instrumentos de uma
narrativa religiosa institucionalizada teve consequências devastadoras para as
suas vidas.
Acusa o clero local de Ourém e
a hierarquia da Igreja Católica de abuso psicológico e espiritual, afirmando
que os jejuns e práticas religiosas impostas contribuíram para o
enfraquecimento físico das crianças, levando à morte prematura de Jacinta e
Francisco, vítimas de pneumonia, e ao encerramento de Lúcia num convento,
afastando-a da família e da vida civil.
Estas posições valeram-lhe
duras críticas, condenações públicas e tentativas de silenciamento, mas também
reforçaram o seu estatuto como voz dissidente e incómoda no interior da
história recente do catolicismo português.
Morte
Após sofrer um grave acidente
de carro a 26 de janeiro de 2022, em Macieira da Lixa, Padre Mário de Oliveira
faleceu a 24 de fevereiro de 2022, no Hospital de Penafiel, poucos dias antes
de completar 85 anos.
A sua morte encerrou uma vida
marcada pela coerência ética, pela resistência à opressão política e religiosa,
e por uma visão do cristianismo centrada na liberdade, na justiça social e na
dignidade humana.





















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