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segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Padre Mário Pais de Oliveira – “Fátima nunca mais”


 

Mário Pais de Oliveira, mais conhecido como Padre Mário de Oliveira ou Padre da Lixa, nasceu em Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira, a 8 de março de 1937. Foi presbítero, filósofo, teólogo, jornalista e escritor português.

Ordenado sacerdote na Igreja Católica, afastou-se progressivamente da ortodoxia institucional, identificando-se com o Jesuísmo - corrente que privilegia a mensagem ética, social e libertadora de Jesus de Nazaré, dissociando-a das estruturas dogmáticas e hierárquicas do catolicismo romano.

Ficou conhecido sobretudo pela sua postura crítica e interventiva durante a ditadura do Estado Novo, numa época em que grande parte do clero português se mantinha alinhada ou silenciosa perante o regime.

Antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, Padre Mário denunciou publicamente a Guerra Colonial, considerando-a injusta, imoral e contrária ao Evangelho. Essa posição valeu-lhe perseguição pela PIDE/DGS, a polícia política do regime, e levou-o a ser julgado duas vezes em Tribunal Plenário, instrumento judicial usado para reprimir opositores políticos.

Exerceu funções como professor de Religião e Moral no Liceu Normal D. Manuel II, no Porto. Posteriormente, foi enviado como capelão militar para a guerra colonial, experiência que marcou profundamente o seu percurso.

No contacto direto com soldados portugueses e populações locais, confrontou-se com os dramas humanos da guerra, a violência estrutural do colonialismo e o sofrimento psicológico dos combatentes, reforçando a sua oposição ao conflito e à lógica imperial do regime.

Quando foi levado a tribunal durante a ditadura, recebeu inicialmente apoio de vastos setores progressistas da Igreja Católica, de intelectuais e de movimentos democráticos. Contudo, esse apoio esbateu-se quando as suas posições teológicas e políticas passaram a ser consideradas demasiado heterodoxas.

O então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, figura ele próprio conhecida pela oposição ao Estado Novo, acabou por lhe retirar a paróquia de Macieira da Lixa, sinal claro do isolamento institucional a que Padre Mário foi votado dentro da hierarquia eclesiástica.

Apesar disso, manteve ao longo da vida uma ligação consistente a meios progressistas, ecuménicos e críticos, tanto dentro como fora da Igreja Católica. A sua reflexão teológica, filosófica e política aproximou-o cada vez mais do Jesuísmo, afastando-o do clericalismo, do culto mariano tradicional e da teologia dogmática.

Destacou-se igualmente pela sua intensa atividade como jornalista, sendo diretor do jornal Fraternizar, publicação de inspiração cristã libertadora, que continua a ser editada e que serviu como espaço de denúncia social, reflexão política e crítica eclesial.

A comunidade que dirigiu em Lourosa e na região da Lixa teve um papel relevante na solidariedade internacional, particularmente no apoio aos processos de democratização na América Latina.

Durante as décadas de 1970 e 1980, período marcado por ditaduras militares violentas em vários países latino-americanos, promoveu ações de denúncia, informação e apoio a movimentos populares e cristãos de base, em sintonia com a Teologia da Libertação.

Em abril de 1999, publicou em Portugal, pela Editora Campo das Letras, o livro Fátima nunca mais, obra que provocou forte polémica e alcançou oito edições em apenas doze meses.

No livro, Padre Mário de Oliveira procura desconstruir o mito das aparições de Fátima, apresentando argumentos históricos, psicológicos e sociológicos que, segundo o autor, desmentem a natureza sobrenatural dos acontecimentos de 1917.

Sustenta que a utilização de Jacinta Marto, Francisco Marto e Lúcia de Jesus dos Santos como instrumentos de uma narrativa religiosa institucionalizada teve consequências devastadoras para as suas vidas.

Acusa o clero local de Ourém e a hierarquia da Igreja Católica de abuso psicológico e espiritual, afirmando que os jejuns e práticas religiosas impostas contribuíram para o enfraquecimento físico das crianças, levando à morte prematura de Jacinta e Francisco, vítimas de pneumonia, e ao encerramento de Lúcia num convento, afastando-a da família e da vida civil.

Estas posições valeram-lhe duras críticas, condenações públicas e tentativas de silenciamento, mas também reforçaram o seu estatuto como voz dissidente e incómoda no interior da história recente do catolicismo português.

Morte

Após sofrer um grave acidente de carro a 26 de janeiro de 2022, em Macieira da Lixa, Padre Mário de Oliveira faleceu a 24 de fevereiro de 2022, no Hospital de Penafiel, poucos dias antes de completar 85 anos.

A sua morte encerrou uma vida marcada pela coerência ética, pela resistência à opressão política e religiosa, e por uma visão do cristianismo centrada na liberdade, na justiça social e na dignidade humana.

Diga a verdade aos seus filhos!


 

Diga-lhes a verdade. Diga-lhes que Papai Noel não existe. Diga-lhes que Satanás não é negro - associação construída historicamente para demonizar corpos, culturas e espiritualidades africanas durante a expansão do cristianismo europeu.

Diga-lhes que cada povo possui seus antepassados, sua memória espiritual e seu egregora - conceito presente em diversas tradições africanas e também estudado pela antropologia e pela sociologia das religiões.

Diga-lhes que nossos rituais não são bruxaria. São sistemas simbólicos complexos, organizados, com ética, cosmologia e função social, anteriores às religiões abraâmicas e tão estruturados quanto elas.

Diga-lhes que tudo começou no Egito africano, o Kemet dos próprios egípcios.
A arqueologia, a linguística e a genética apontam o Vale do Nilo como uma civilização africana negra, ligada culturalmente à Núbia, Kush e ao restante do continente.

O historiador senegalês Cheikh Anta Diop demonstrou, por meio de análises craniométricas, estudos de melanina, linguística comparada e fontes greco-romanas, que os antigos egípcios eram africanos negros - tese hoje amplamente debatida, mas sustentada por evidências sólidas.

Autores clássicos como Heródoto, Diodoro da Sicília e Estrabão descrevem os egípcios como de “pele escura” e “cabelos crespos”. Não se trata de ideologia moderna, mas de registros antigos.

Diga-lhes que o Egito foi um centro avançado de ciência, matemática, medicina, filosofia e arquitetura quando a Europa ainda atravessava longos períodos de obscuridade técnica.

Os papiros matemáticos de Rhind e Moscou demonstram domínio de geometria, frações, cálculo de áreas e volumes cerca de 2.000 anos antes da Grécia clássica.

Diga-lhes que Pitágoras, Tales de Mileto e Platão estudaram no Egito. Isso é reconhecido por fontes gregas antigas. Ainda assim, a história preferiu apagar os mestres africanos e glorificar apenas os discípulos europeus.

Diga-lhes que Imhotep, arquiteto da pirâmide de Djoser, médico, engenheiro e filósofo, é o verdadeiro pai da medicina científica, citado em papiros médicos como o Papiro Edwin Smith - mas permanece ausente dos currículos escolares.

Diga-lhes que Cristóvão Colombo não descobriu as Américas. Povos indígenas já habitavam o continente há dezenas de milhares de anos. Há também estudos controversos, porém relevantes, sobre possíveis contatos africanos pré-colombianos, como os apresentados por Ivan Van Sertima, que analisou evidências botânicas, linguísticas e escultóricas (notadamente as cabeças colossais olmecas).

Diga-lhes que Mansa Musa, imperador do Mali no século XIV, foi o homem mais rico da história registrada. Relatos árabes contemporâneos descrevem que sua peregrinação a Meca foi tão grandiosa que causou inflação no Egito por mais de uma década. O Império do Mali mantinha universidades, bibliotecas e centros de estudo em Timbuktu, Djenné e Gao.

Diga-lhes que a África escrevia antes da chegada dos missionários. Existiam sistemas como o hieróglifo egípcio, o meroítico, o ge’ez, o tifinagh e vastas tradições de manuscritos em árabe e línguas africanas, hoje preservadas em coleções privadas e públicas no Sahel.

Diga-lhes que o concreto (betão) já era utilizado no Egito antigo, como demonstram estruturas duráveis feitas com misturas de calcário e materiais aglutinantes, séculos antes do concreto romano.

Diga-lhes que o ancestral mais antigo da humanidade foi encontrado na África:
Lucy (Australopithecus afarensis), descoberta na Etiópia, e fósseis ainda mais antigos no Chade e no Quênia confirmam cientificamente que a África é o berço da humanidade - consenso absoluto da paleoantropologia moderna.

Diga-lhes também que museus ocidentais estão repletos de arte africana saqueada durante expedições coloniais punitivas. O Relatório Sarr–Savoy (2018), encomendado pelo governo francês, reconhece oficialmente o roubo sistemático de patrimônio cultural africano.

Diga-lhes que o vandalismo nos narizes das estátuas egípcias não é mera erosão. Historiadores da arte e arqueólogos documentaram práticas deliberadas de mutilação simbólica para apagar traços africanos e negar a identidade negra do Egito antigo.

Diga-lhes, por fim, que a união é condição de sobrevivência. Que nenhuma libertação veio por milagre. Que o trabalho, a consciência histórica e a reconstrução da memória são atos revolucionários.

E diga-lhes para não esperar que o maná caia do céu - porque a história não se escreve ajoelhada, mas de pé.

domingo, fevereiro 01, 2026

Entre a Cruz e o Chicote


 

O financiamento e a sustentação da escravidão pelas igrejas católicas e protestantes não constituíram um desvio moral pontual, tampouco um simples “erro de época”. Tratou-se, antes, de um projeto econômico, político e teológico profundamente entranhado nas estruturas de poder do mundo colonial e imperial, no qual a religião desempenhou papel ativo na legitimação e na reprodução da ordem escravocrata.

Durante séculos, ordens religiosas católicas - como jesuítas, beneditinos, carmelitas, mercedários e franciscanos - acumularam vastas propriedades rurais, engenhos de açúcar, fazendas de gado e, sobretudo, pessoas escravizadas, cuja exploração garantia tanto a subsistência cotidiana dos conventos quanto rendimentos significativos.

A disciplina do trabalho forçado sustentava, simultaneamente, a rotina econômica e o calendário litúrgico dessas instituições. No auge do século XIX, por exemplo, a Ordem de São Bento possuía cerca de quatro mil escravizados distribuídos por suas unidades no Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Bahia.

Esses cativos, conhecidos como “escravos da religião”, pertenciam coletivamente às ordens - não a indivíduos -, o que moldava de forma particular sua existência: eram obrigados a frequentar missas, participar de orações, receber sacramentos e submeter-se à catequese contínua.

Resistências à conversão, à disciplina religiosa ou ao trabalho podiam resultar em castigos exemplares, aplicados não apenas como punição, mas como pedagogia do medo.

Inserida no regime do padroado real - acordo que subordinava a Igreja Católica à Coroa portuguesa em troca de privilégios políticos, financeiros e administrativos -, a instituição eclesiástica ofereceu fundamentação moral e teológica ao sistema escravista.

Argumentava-se que a escravidão seria um mal menor, um instrumento para retirar africanos e seus descendentes do “paganismo” e conduzi-los à salvação cristã, mesmo que isso implicasse violência, desumanização e perda absoluta da liberdade.

Assim, a cruz caminhava lado a lado com o chicote. A fé operava como uma sofisticada tecnologia de dominação simbólica: ensinava obediência irrestrita, naturalizava a hierarquia social, atribuía sentido redentor ao sofrimento e inculcava a ideia de que a dor, aceita com resignação, seria recompensada no além.

A miséria presente tornava-se, nos sermões, promessa de glória futura. Versículos bíblicos eram cuidadosamente selecionados, descontextualizados e reinterpretados para justificar a submissão - passagens que falavam de servos obedecendo a seus senhores ou a infame “maldição de Cam”, aplicada de forma racista aos povos africanos.

A catequese e o batismo, muitas vezes forçados ou fortemente induzidos, funcionavam como anestesia simbólica para um processo brutal de expropriação econômica, violência física e apagamento cultural.

As igrejas protestantes, embora tenham chegado mais tarde ao Brasil - sobretudo a partir do século XIX, com presbiterianos, batistas, metodistas e outras denominações -, também não ficaram à margem desse processo.

Muitas delas carregavam consigo heranças teológicas oriundas do sul escravocrata dos Estados Unidos, onde leituras racistas da Bíblia haviam sido amplamente usadas para legitimar a escravidão.

No Brasil imperial, há registros de comunidades protestantes que possuíam escravizados ou que aceitavam senhores de escravos como membros plenos, sem questionar de forma contundente o sistema.

Posições abolicionistas mais firmes só se tornaram visíveis quando a abolição já se consolidava como consenso político e social. Ainda hoje, movimentos como o Movimento Negro Evangélico pressionam denominações - entre elas Presbiteriana, Batista e Luterana - a abrirem seus arquivos históricos, a fim de esclarecer o grau de envolvimento institucional e os benefícios econômicos obtidos.

Em ambos os casos - católico e protestante -, a religião não foi mera cúmplice passiva. Atuou como força legitimadora, fornecendo arcabouço moral, simbólico e ideológico ao escravagismo, ajudando a sustentar elites econômicas, o Estado colonial e as próprias instituições eclesiais.

A Bíblia, a cruz e a catequese funcionaram como instrumentos de controle social, moldando consciências para aceitar a dominação como expressão da vontade divina.

Esse legado histórico exige reflexão crítica permanente, especialmente em um país como o Brasil, onde a escravidão não foi um episódio periférico, mas o eixo estruturante de desigualdades que persistem até hoje.

Embora as igrejas contemporâneas, em sua maioria, condenem qualquer forma de escravidão como intrinsecamente maligna, o reconhecimento honesto e público desse passado é fundamental - não apenas como exercício de memória, mas como alerta sobre o perigo constante de instrumentalizar a fé para legitimar novas formas de opressão.

Crueldade, privilégio e impunidade: dois crimes, o mesmo abismo moral


 

O caso do indígena Pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo enquanto dormia em um ponto de ônibus em Brasília, e o do cão comunitário Orelha, brutalmente espancado e morto por adolescentes de classe alta em Florianópolis, embora separados por quase três décadas, revelam semelhanças perturbadoras.

Ambos escancaram a banalização da violência, a desumanização - ou desvalorização da vida - e o sentimento de impunidade que parece acompanhar determinados estratos privilegiados da sociedade brasileira.

Não se trata apenas de crimes isolados, mas de sintomas de uma estrutura social adoecida, na qual jovens amparados por sobrenomes influentes, recursos financeiros e redes de proteção agem como se estivessem acima da lei, da empatia e da própria noção de humanidade.

O fogo contra o invisível

Na madrugada de 20 de abril de 1997, Galdino Jesus dos Santos, liderança da etnia Pataxó Hã-Hã-Hãe, de 44 anos, dormia em um banco de ponto de ônibus na quadra 703 Sul, em Brasília.

Ele havia viajado da Bahia à capital federal junto a outras lideranças indígenas para participar de reuniões com autoridades governamentais, reivindicando a demarcação de terras ancestrais em meio a violentos conflitos fundiários no sul baiano.

Após as comemorações do Dia do Índio na sede da Funai, Galdino não conseguiu retornar à pensão onde estava hospedado, fechada durante a noite. Cansado, decidiu descansar ali mesmo - decisão que lhe custaria a vida.

Cinco jovens, com idades entre 16 e 19 anos - Max Rogério Alves, Eron Chaves Oliveira, Tomás Oliveira de Almeida, Antônio Novely Vilanova Cardoso (filho de um juiz federal) e Gutemberg Nader Almeida Júnior - resolveram “se divertir”.

Jogaram líquido inflamável sobre o corpo de Galdino e atearam fogo, afirmando posteriormente que acreditavam se tratar de um mendigo e que queriam apenas “dar um susto”.

Galdino teve 95% do corpo queimado, a maioria em terceiro grau. Ainda consciente, foi levado ao Hospital Regional da Asa Norte, onde morreu horas depois, em estado de extrema dor e lucidez - uma das faces mais cruéis desse crime.

Em 2001, os autores foram condenados a 14 anos de prisão por homicídio com dolo eventual. No entanto, progressões de pena, benefícios legais e a posterior reinserção social de alguns - inclusive a ocupação de cargos públicos - reacenderam o debate nacional sobre seletividade penal e impunidade.

O local do crime foi transformado na Praça do Compromisso, rebatizada em 2023 como Praça Índio Pataxó Galdino Jesus dos Santos, com uma escultura em sua memória - um gesto simbólico que, embora necessário, não repara a falha estrutural do Estado.

A violência como “brincadeira”

Quase trinta anos depois, em 4 de janeiro de 2026, outro episódio de brutalidade chocou o país. Na Praia Brava, bairro turístico de alto padrão no norte de Florianópolis, o cão comunitário Orelha, conhecido por sua docilidade e cuidado coletivo dos moradores, foi espancado até a morte por quatro adolescentes de 14 a 17 anos, também oriundos de famílias influentes.

Utilizando paus ou objetos contundentes, os jovens atingiram repetidamente a cabeça do animal, provocando ferimentos irreversíveis que levaram à eutanásia para cessar seu sofrimento. Não satisfeitos, ainda tentaram afogar outro cão, posteriormente chamado Caramelo, que sobreviveu e acabou adotado pelo delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina.

Quando o caso veio à tona, dois dos adolescentes estavam em viagem à Disney, nos Estados Unidos. Ao retornarem, tiveram celulares apreendidos. A investigação apontou atos infracionais de maus-tratos a animais, dano e coação de testemunhas, envolvendo inclusive pais e um tio dos envolvidos, posteriormente indiciados.

O crime gerou comoção nacional, protestos e a mobilização de artistas, ativistas e cidadãos comuns sob a hashtag #JustiçaPorOrelha, evidenciando o aumento de episódios de violência extrema cometidos por jovens - muitas vezes registrados ou estimulados pela lógica de espetáculo das redes sociais.

A lógica da desumanização

Um era um ser humano - mas tratado como alguém de “segunda categoria”, por ser indígena, vítima histórica do racismo estrutural e da invisibilidade social em um país que ainda falha em reconhecer plenamente os direitos de seus povos originários.

O outro era um animal - dócil, inofensivo e comunitário - visto como descartável por viver nas ruas, reduzido à condição de objeto, o que permitiu aos agressores enquadrar sua barbárie como simples “brincadeira”.

Em ambos os casos, o denominador comum é o mesmo: a desumanização do outro e a certeza, explícita ou implícita, de que as consequências seriam mínimas. Filhos de juízes, empresários ou famílias influentes crescem, muitas vezes, em bolhas onde o poder protege, relativiza e silencia.

Para onde estamos indo?

Que tipo de sociedade estamos formando quando jovens capazes de tamanha crueldade são tratados como exceções, e não como sintomas? Esses adolescentes poderão, amanhã, ocupar cargos de poder - políticos, médicos, gestores, juízes. Que valores carregarão consigo?

Esses episódios não são desvios isolados. Eles refletem uma crise ética profunda, alimentada por desigualdades sociais, educação falha em empatia, elitismo, especismo e pela normalização da violência no espaço digital e no cotidiano.

Caminhamos para um futuro sombrio se não houver responsabilização rigorosa, políticas educacionais humanizadoras e um enfrentamento real das estruturas que naturalizam a violência contra os mais vulneráveis - sejam indígenas, animais ou minorias sociais.

A pergunta que ecoa é incômoda, mas necessária: se a impunidade persistir, estaremos abrindo caminho para novos horrores coletivos, para genocídios seletivos, para a repetição de tragédias que a história já nos ensinou a temer?

Ainda há tempo de refletir, corrigir rotas e construir uma sociedade verdadeiramente justa e compassiva. Mas o silêncio, a conivência e o esquecimento jamais serão neutros.

sábado, janeiro 31, 2026

Casa Grande.


O medo dos senhores e os fantasmas do poder

O homem nunca é cruel e injusto com impunidade. A violência praticada contra o outro não se encerra no ato em si: ela retorna, silenciosa e persistente, na forma de ansiedade, culpa e medo.

Aqueles que abusam do poder passam a ser perseguidos por terrores imaginários, obsessões paranoicas e fantasmas que eles próprios criaram. A injustiça, ainda que socialmente legitimada, cobra um preço psicológico alto de quem a exerce.

Nas plantações de cana-de-açúcar, o senhor castigava o escravizado com brutalidade, reduzindo-o à condição de ferramenta viva, força de trabalho descartável. Tratava-o como besta de carga, impunha-lhe jornadas exaustivas, castigos físicos e humilhações constantes.

No entanto, por trás da aparência de domínio absoluto, escondia-se um medo profundo e permanente. O senhor temia o ódio silencioso do escravizado, a vingança que poderia brotar a qualquer momento, na escuridão da noite ou na solidão dos campos.

Quanto maior era a subjugação dos negros, maior também era o temor que eles inspiravam. O poder, paradoxalmente, não trazia tranquilidade, mas insegurança. Os senhores sabiam, ainda que não o admitissem, que a violência sem limites gera ressentimento, e que o ressentimento pode se transformar em revolta.

A lembrança de levantes, fugas, quilombos e assassinatos de feitores alimentava uma atmosfera constante de tensão nas fazendas. Mas o medo não se limitava à possibilidade concreta de rebelião.

Havia algo mais profundo, quase inconfessável. Muitos senhores acreditavam que os escravizados detinham poderes ocultos, forças invisíveis herdadas da África, associadas à feitiçaria, aos rituais, aos encantamentos e aos saberes ancestrais.

A religiosidade africana, incompreendida e demonizada, transformava-se, no imaginário da “casa-grande”, em ameaça sobrenatural. Talvez alguns escravizados tenham, de fato, se vingado de seus tiranos, seja por meio da violência direta, seja por estratégias sutis de resistência, sabotagem ou envenenamento.

No entanto, o medo que reinava nas plantações tinha origem em camadas mais profundas da alma senhorial. Não era apenas o receio da morte física, mas o pavor do desconhecido, do que não podia ser controlado ou racionalizado.

A África, com seus mistérios, símbolos e crenças, perturbava o sono dos senhores. Aquilo que eles tentaram esmagar com o chicote retornava como pesadelo. O escravizado, mesmo acorrentado, permanecia, aos olhos do opressor, como portador de uma força que escapava ao domínio material.

Assim, a “casa-grande”, símbolo de poder e riqueza, tornava-se também um espaço assombrado, habitado por culpas, medos e fantasmas criados pela própria violência que sustentava sua existência.

No fim, a escravidão não desumanizou apenas os escravizados. Ela corroeu também a humanidade dos senhores, aprisionando-os em uma existência marcada pelo medo constante - prova silenciosa de que nenhum sistema de opressão se mantém sem cobrar um preço psicológico e moral de quem o impõe.

Adão e Eva e o Paraíso


As histórias bíblicas que as pessoas aceitam sem questionar nem um milímetro

Uma das narrativas bíblicas mais conhecidas - e, ao mesmo tempo, mais aceitas sem maiores questionamentos - é a de Adão e Eva no Jardim do Éden. Para muitos leitores contemporâneos, essa história soa mais como um conto moral ou até infantil do que como um relato histórico literal ou uma construção teológica profundamente elaborada.

Ainda assim, ela permanece como um dos pilares simbólicos do pensamento judaico-cristão. Segundo o livro do Gênesis (capítulos 2 e 3), Deus cria o primeiro homem, Adão, do pó da terra, insuflando nele o fôlego da vida.

Em seguida, ao perceber que o homem estava só, forma Eva a partir de uma costela de Adão, estabelecendo entre eles uma relação de unidade e complementaridade.

Ambos passam a viver no Jardim do Éden, descrito como um paraíso primordial: árvores frutíferas em abundância, rios que irrigam a terra, animais convivendo em harmonia e, sobretudo, uma relação direta e sem intermediários com Deus.

A única restrição imposta é clara e específica: eles podem comer livremente de todas as árvores do jardim, exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus adverte de forma explícita: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17).

Trata-se de um limite simples, quase pedagógico, que introduz a noção de obediência e escolha. Por um tempo indeterminado, tudo permanece em ordem. Adão e Eva obedecem sem aparente conflito, vivendo num estado de inocência em que não conhecem a vergonha, o medo ou a culpa.

Mas então surge a serpente, descrita como o animal mais astuto do jardim. Em interpretações teológicas posteriores, especialmente no cristianismo, ela passa a ser associada a Satanás, embora o texto bíblico original não faça essa identificação de forma explícita.

A serpente se aproxima de Eva - que, naquele momento, aparece sozinha ou separada de Adão - e inicia um diálogo sutil e estratégico. Primeiro, distorce a ordem divina: “É verdade que Deus disse que vocês não devem comer de nenhuma árvore do jardim?”.

Eva responde corretamente em parte, mas já acrescenta algo que Deus não havia dito, ao afirmar que não poderiam sequer tocar no fruto. A dúvida começa a se infiltrar.

A serpente então nega diretamente a consequência anunciada por Deus: “Vocês não morrerão. Deus sabe que, no dia em que comerem, seus olhos se abrirão e vocês serão como Deus, conhecendo o bem e o mal”. O argumento não apela à fome, mas ao desejo de autonomia, de sabedoria, de igualdade com o divino.

Eva observa o fruto. O texto é cuidadoso ao descrevê-lo como “bom para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento”. Ela come e oferece a Adão, que aceita sem resistência ou questionamento. O ato é simples, quase banal, mas suas consequências são imediatas e profundas.

Seus olhos se abrem, não no sentido glorioso prometido, mas para uma nova consciência: percebem que estão nus, algo que antes não causava desconforto. Surge a vergonha, o medo e a necessidade de se esconder. Costuram folhas para cobrir o corpo e tentam se ocultar da presença de Deus, algo impensável até então.

Quando confrontados, ninguém assume plenamente a responsabilidade. Adão culpa Eva e, de forma indireta, o próprio Deus: “A mulher que me deste…”. Eva, por sua vez, culpa a serpente. Deus então pronuncia as consequências - chamadas tradicionalmente de maldições.

A serpente é condenada a rastejar e a viver em inimizade com a descendência da mulher. Eva passa a enfrentar dor no parto e uma relação de submissão ao marido. Adão é condenado ao trabalho árduo: a terra, antes generosa, agora produzirá espinhos, e ele só obterá sustento com esforço, até retornar ao pó de onde veio.

Por fim, o casal é expulso do Éden, não apenas como punição, mas para impedir que coma da árvore da vida e viva eternamente naquele estado de ruptura. Começa, então, a história da humanidade “fora do paraíso”.

A narrativa segue com o nascimento dos filhos: Caim, Abel, Sete e outros. Rapidamente, o conflito se intensifica. O primeiro assassinato ocorre quando Caim mata Abel, movido por ciúme e ressentimento.

A violência, a inveja e a morte entram definitivamente na experiência humana, moldando um mundo marcado por sofrimento, trabalho duro e escolhas morais complexas.

Muitos crentes aceitam essa história de forma literal, como um fato histórico absoluto, e veem Adão e Eva como os grandes responsáveis por todos os males do mundo.

São considerados a origem do chamado “pecado original”, transmitido a toda a humanidade como uma herança espiritual inevitável. Não é raro que sejam tratados como vilões, especialmente Eva, frequentemente culpabilizada com maior rigor, reforçando visões tradicionais e desiguais sobre gênero e responsabilidade.

No entanto, há uma ironia profunda que raramente é discutida: se Adão e Eva não tivessem desobedecido, não existiria a humanidade tal como a conhecemos. Não haveria história, nem povos, nem profetas, nem reis de Israel. Não existiriam igrejas, padres, pastores, papas, nem a própria ideia de salvação, redenção ou Messias.

Dentro da lógica da teologia cristã, a “queda” acaba se tornando o ponto de partida para todo o plano divino, culminando na vinda de Cristo, apresentado como o “novo Adão”, aquele que vem restaurar o que foi perdido.

Assim, o que parece uma narrativa simples sobre desobediência e punição revela camadas muito mais complexas: livre-arbítrio, tentação, desejo de conhecimento, responsabilidade moral, sofrimento e o nascimento da consciência humana.

Talvez a grande questão não seja apenas por que Adão e Eva desobedeceram, mas se a chamada “queda” foi realmente uma tragédia absoluta - ou o preço inevitável para que a humanidade adquirisse consciência, escolha e, sobretudo, história.

sexta-feira, janeiro 30, 2026

A Pedra de Santana



 

A Pedra da Santana (também conhecida como Pedra do Sobrado, Pedra do Bandeira ou simplesmente Dólmen de Santana) é um impressionante monumento megalítico localizado em uma propriedade particular na comunidade rural de Santana, a aproximadamente 13-15 km do centro do município de Paramirim, no estado da Bahia, Brasil.

Situada no topo da Serra da Santana, na região da Chapada Diamantina Meridional, a formação está a cerca de 950 metros acima do nível do mar. Paramirim fica a aproximadamente 800 km de Salvador, em uma área de relevo acidentado, com acesso por estrada de terra que exige veículo adequado (4x4 recomendado em épocas chuvosas).

O local é de difícil acesso, o que contribui para o seu caráter isolado e misterioso. A Pedra da Santana é classificada como um dólmen, um tipo de estrutura megalítica caracterizada por uma grande laje horizontal (a "mesa") apoiada sobre pedras verticais menores, formando uma espécie de câmara ou mesa de pedra.

No Brasil, é considerada o exemplo mais notável e raro desse tipo de construção - muitas fontes a descrevem como o único dólmen brasileiro autêntico ou o principal, embora haja menções a estruturas semelhantes isoladas em outros estados, como no Ceará (Senador Pompeu) ou Goiás (Anicuns).

Na América do Sul, exemplos comparáveis são extremamente escassos, tornando-a um patrimônio arqueológico único no continente.

Acesso e trilha

A trilha até o topo da serra tem cerca de 2-2,5 km de ida (e o mesmo para a volta), com partes estreitas, íngremes e exigentes fisicamente, especialmente na etapa final.

O percurso leva em média 40-60 minutos em ritmo acelerado para quem está em boa forma, mas pode demorar mais para a maioria das pessoas. Recomenda-se levar água, protetor solar, calçados adequados e, idealmente, um guia local (muitos moradores da comunidade, como proprietários de terras próximas, oferecem acompanhamento).

No topo, a vista panorâmica é deslumbrante, com paisagens serranas da Chapada Diamantina se estendendo ao horizonte. Nas proximidades, há outras formações rochosas empilhadas, mas nenhuma tão imponente ou bem preservada quanto a Pedra da Santana.

Características e mistério da origem

O que torna a Pedra da Santana especialmente intrigante é a ausência aparente de marcas de ferramentas humanas na base ou nas pedras de suporte. Não há sinais claros de cortes, perfurações ou danos que indiquem intervenção recente ou mecânica moderna.

A laje superior parece perfeitamente equilibrada sobre as pedras verticais, sem argamassa ou fixação artificial visível. Essa configuração sugere equilíbrio natural ou, para alguns especuladores, arranjo intencional por povos antigos.

Contexto arqueológico e megalítico

Os dólmens são monumentos típicos do período Neolítico (aproximadamente 10.000-2.000 a.C. na Europa, Ásia e Norte da África), frequentemente associados a sepulturas coletivas, rituais ou marcações astronômicas. Exemplos famosos incluem Stonehenge (Inglaterra), Carnac (França) e dólmens na Coreia e na Índia.

Na América, estruturas megalíticas são raras e geralmente não se enquadram no mesmo período neolítico clássico, pois as civilizações pré-colombianas (como maias, incas ou povos andinos) usavam técnicas diferentes, com pedras trabalhadas e encaixadas com precisão, mas sem o formato clássico de dólmen europeu.

No Brasil, sítios megalíticos incluem alinhamentos de pedras na Bahia (como em Monte Alto, sudoeste do estado), círculos em Minas Gerais e Amapá, e outros vestígios na Chapada Diamantina.

A Pedra da Santana desafia explicações puramente geológicas para muitos observadores, pois sua posição elevada e o equilíbrio preciso sugerem intervenção humana pré-histórica.

Alguns pesquisadores e entusiastas propõem que possa indicar contatos ou difusões culturais antigas entre continentes, em uma era em que o mundo não era tão "primitivo" ou isolado quanto a narrativa tradicional sugere - embora a ciência mainstream atribua a maioria dessas formações a processos geológicos naturais (erosão diferencial, deslizamentos ou empilhamento por forças tectônicas) ou a povos indígenas locais com técnicas rudimentares.

Importância atual

Hoje, a Pedra da Santana é um ponto turístico emergente de Paramirim, atraindo trilheiros, amantes da natureza, pesquisadores de mistérios arqueológicos e até romarias religiosas (especialmente na Semana Santa, quando fiéis sobem para celebrar a Via-Sacra até um cruzeiro próximo).

A prefeitura local promove o local como cartão-postal, mas enfatiza a preservação: não se deve subir ou escalar a estrutura para evitar danos. Há relatos antigos de vandalismo ou tentativas de destruição, o que reforça a necessidade de proteção.

Em resumo, a Pedra da Santana permanece um enigma fascinante: seja uma obra impressionante da natureza, um vestígio de uma civilização pré-histórica brasileira ou um raro dólmen em terras americanas, ela convida à reflexão sobre nossas origens e sobre como o planeta guarda segredos ainda não totalmente explicados. Visitar o local é uma experiência que combina aventura física, beleza natural e um toque de mistério ancestral.

As Religiões são superstições elaboradas


As religiões como superstições elaboradas e seu impacto histórico

As religiões podem ser vistas como formas altamente elaboradas de superstição. Ao longo dos séculos, elas desenvolveram estruturas complexas - livros sagrados, literatura teológica, doutrinas sistematizadas, rituais, hierarquias e até culturas inteiras -, o que lhes conferiu uma aparência de respeitabilidade e legitimidade social.

Essa sofisticação as diferenciou de crenças populares mais simples, permitindo que se enraizassem profundamente nas sociedades. No entanto, as crenças religiosas frequentemente se sustentam em mecanismos de autoengano, medo da morte, do desconhecido e do castigo divino.

Esses elementos emocionais foram reforçados por tradições culturais, educação desde a infância, doutrinação sistemática e, sobretudo, interesses de poder. Líderes políticos e religiosos historicamente usaram a fé como ferramenta de controle social, justificando hierarquias, obediência e até violência.

Ao longo da história, dogmas religiosos absolutistas contribuíram para incontáveis conflitos e massacres. Embora nem todos os historiadores concordem que a religião seja a causa principal (muitos conflitos misturam fatores políticos, econômicos e étnicos), guerras e perseguições com forte motivação religiosa causaram milhões de mortes. Exemplos notórios incluem:

As Cruzadas (1095-1291): Uma série de campanhas militares cristãs para reconquistar terras sagradas, resultando em estimativas de 1 a 3 milhões de mortes (alguns estudos sugerem até 5-6 milhões ao considerar fome, doenças e massacres mútuos), incluindo civis muçulmanos, judeus e até cristãos orientais.

A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648): Conflito europeu inicialmente religioso (católicos vs. protestantes), que se transformou em luta pelo poder, devastando o centro da Europa e causando entre 4 e 8 milhões de mortes (muitas por fome e epidemias).

A Inquisição (principalmente a espanhola, 1478-1834): Tribunal eclesiástico que perseguiu hereges, judeus convertidos e muçulmanos. Estimativas modernas indicam cerca de 3.000 a 5.000 execuções diretas (principalmente na fase inicial), com dezenas de milhares processados e punidos de outras formas (prisão, confisco de bens, tortura).

A Noite de São Bartolomeu (1572): Massacre de huguenotes (protestantes franceses) em Paris e províncias, ordenado ou tolerado pela coroa católica, com estimativas de 5.000 a 30.000 mortos em poucas semanas.

Conflitos xiitas vs. sunitas: Desde o século VII, disputas sectárias no Islã geraram violência recorrente, com milhares de mortes anuais em períodos recentes (como no Iraque, Síria e Iêmen pós-2003).

Outros episódios incluem as guerras religiosas na França (século XVI), a perseguição aos cátaros (Cruzada Albigense) e massacres em nome de várias fés. Estudos quantitativos (como a Encyclopedia of Wars) mostram que apenas cerca de 7% das guerras registradas na história tiveram motivação primariamente religiosa, representando menos de 2% das mortes totais em conflitos armados - o que indica que guerras seculares, nacionalistas ou ideológicas (como as do século XX) causaram muito mais vítimas.

Ainda assim, quando a religião entra como fator, a violência muitas vezes ganha caráter de "guerra santa", justificando crueldades extremas. As religiões, em sua forma institucionalizada, funcionaram historicamente como "exércitos do mal" em muitos contextos: não só por promoverem divisões e intolerância, mas por servirem de pretexto para dominação, extorsão e controle.

Líderes - papas, pastores, imãs ou gurus - frequentemente exploram o medo do inferno, da danação eterna ou da exclusão comunitária para manter fiéis obedientes e doadores generosos.

Isso afeta especialmente populações com menor acesso à educação crítica, mais suscetíveis à manipulação emocional e à lavagem cerebral coletiva. Hoje, muitos líderes religiosos e políticos continuam usando a fé para fins de poder: controle social, justificativa de desigualdades, mobilização eleitoral ou até violência (como em extremismos islâmicos, hindus nacionalistas ou cristãos evangélicos radicais).

Os fiéis, aterrorizados pela ideia de punição eterna, seguem rigorosamente pregações, doam fortunas e aceitam restrições à liberdade - mesmo quando isso beneficia elites corruptas.

Em resumo, as religiões não são apenas crenças pessoais; quando institucionalizadas e dogmáticas, tornaram-se ferramentas poderosas de opressão ao longo da história.

Embora também tenham inspirado caridade, arte e ética em muitos indivíduos, seu saldo negativo em termos de violência, intolerância e exploração continua evidente. A humanidade talvez avance mais quando priorizar razão, empatia e evidências em vez de dogmas absolutos.


quinta-feira, janeiro 29, 2026

Adrian Brody – O Pianista


 

O ator que sacrificou tudo por um papel?

Muitos atores participaram dos testes para o filme O Pianista (The Pianist, 2002), dirigido por Roman Polanski. Ainda assim, nenhum deles conseguiu provocar no diretor a convicção necessária para assumir um projeto tão pessoal e doloroso.

Polanski buscava mais do que técnica ou fama: queria um intérprete capaz de carregar no corpo e no silêncio o peso de uma das maiores tragédias do século XX.

Inicialmente, o diretor considerou o nome de Joseph Fiennes para o papel principal. No entanto, Fiennes recusou a proposta, preferindo dedicar-se ao teatro naquele período.

Foi então que o diretor de elenco sugeriu a Polanski um ator relativamente desconhecido, de apenas 27 anos, que havia chamado atenção em Além da Linha Vermelha (1998), de Terrence Malick.

Ao assistir ao seu trabalho, Polanski reconheceu algo raro: vulnerabilidade genuína aliada a intensidade contida. O nome do ator era Adrien Brody.

O Pianista narra a história real de Władysław Szpilman, compositor e pianista judeu-polonês que sobreviveu aos horrores da ocupação nazista em Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial.

Mais do que um relato sobre o Holocausto, o filme é uma experiência íntima de perda, silêncio e sobrevivência, temas que também atravessam a biografia do próprio Polanski, sobrevivente do gueto de Cracóvia.

Para se preparar para o papel, Brody decidiu mergulhar completamente na vida e no estado emocional de seu personagem. Convencido de que não bastava “interpretar” Szpilman, ele resolveu viver o despojamento.

Abriu mão de praticamente todos os confortos materiais e afetivos que possuía. Desocupou seu apartamento, vendeu o carro, cortou contato com amigos e familiares e desligou os telefones.

Em entrevista à BBC, o ator relatou com franqueza: “Saí do meu apartamento, vendi meu carro, desconectei meus telefones e fui embora. Tudo o que levei comigo foram duas mochilas com algumas roupas e meu teclado de piano para praticar.”

Brody viajou para a Europa e passou semanas perambulando pelo interior da Polônia, buscando absorver não apenas os cenários, mas o clima emocional e histórico dos lugares por onde Szpilman viveu e sofreu.

Como seu personagem era pianista profissional, dedicava várias horas diárias ao estudo do instrumento, concentrando-se sobretudo nas obras de Frédéric Chopin, cuja música atravessa o filme como um fio de humanidade em meio à barbárie.

O sacrifício físico também foi extremo. Para retratar de forma convincente as cenas de fome e exaustão, Brody perdeu cerca de 17 quilos em pouco tempo. Ao final da preparação, pesava apenas 62 quilos, encontrava-se constantemente fatigado e com níveis de energia drasticamente reduzidos. O impacto emocional foi igualmente severo.

“Foi um período muito difícil”, confessou o ator. “Eu não tinha mais nada que me reconfortasse. Não havia comida, nem pessoas queridas com quem conversar. Eu lia o tempo todo as memórias de Władysław Szpilman. Fiquei profundamente deprimido com os horrores que ele enfrentou.”

Esse estado de isolamento e fragilidade, embora doloroso, acabou se refletindo de maneira poderosa na tela. A interpretação de Brody é marcada por contenção, olhares vazios, gestos mínimos, uma atuação que comunica mais pelo silêncio do que pelas palavras, exatamente como exigia a história.

A dedicação radical valeu a pena. O Pianista tornou-se um dos filmes mais importantes sobre o Holocausto já realizados e foi amplamente aclamado pela crítica internacional. Em 2003, Adrien Brody entrou para a história ao receber o Oscar de Melhor Ator, tornando-se, até hoje, o mais jovem vencedor da categoria.

Mais do que um prêmio, sua performance permanece como um exemplo extremo de entrega artística, um lembrete de que, em raras ocasiões, alguns atores realmente sacrificam tudo para dar voz àqueles que quase foram silenciados pela história.O ator que sacrificou tudo por um papel?

Muitos atores participaram dos testes para o filme O Pianista (The Pianist, 2002), dirigido por Roman Polanski. Ainda assim, nenhum deles conseguiu provocar no diretor a convicção necessária para assumir um projeto tão pessoal e doloroso.

Polanski buscava mais do que técnica ou fama: queria um intérprete capaz de carregar no corpo e no silêncio o peso de uma das maiores tragédias do século XX.

Inicialmente, o diretor considerou o nome de Joseph Fiennes para o papel principal. No entanto, Fiennes recusou a proposta, preferindo dedicar-se ao teatro naquele período.

Foi então que o diretor de elenco sugeriu a Polanski um ator relativamente desconhecido, de apenas 27 anos, que havia chamado atenção em Além da Linha Vermelha (1998), de Terrence Malick.

Ao assistir ao seu trabalho, Polanski reconheceu algo raro: vulnerabilidade genuína aliada a intensidade contida. O nome do ator era Adrien Brody.

O Pianista narra a história real de Władysław Szpilman, compositor e pianista judeu-polonês que sobreviveu aos horrores da ocupação nazista em Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial.

Mais do que um relato sobre o Holocausto, o filme é uma experiência íntima de perda, silêncio e sobrevivência, temas que também atravessam a biografia do próprio Polanski, sobrevivente do gueto de Cracóvia.

Para se preparar para o papel, Brody decidiu mergulhar completamente na vida e no estado emocional de seu personagem. Convencido de que não bastava “interpretar” Szpilman, ele resolveu viver o despojamento.

Abriu mão de praticamente todos os confortos materiais e afetivos que possuía. Desocupou seu apartamento, vendeu o carro, cortou contato com amigos e familiares e desligou os telefones.

Em entrevista à BBC, o ator relatou com franqueza: “Saí do meu apartamento, vendi meu carro, desconectei meus telefones e fui embora. Tudo o que levei comigo foram duas mochilas com algumas roupas e meu teclado de piano para praticar.”

Brody viajou para a Europa e passou semanas perambulando pelo interior da Polônia, buscando absorver não apenas os cenários, mas o clima emocional e histórico dos lugares por onde Szpilman viveu e sofreu.

Como seu personagem era pianista profissional, dedicava várias horas diárias ao estudo do instrumento, concentrando-se sobretudo nas obras de Frédéric Chopin, cuja música atravessa o filme como um fio de humanidade em meio à barbárie.

O sacrifício físico também foi extremo. Para retratar de forma convincente as cenas de fome e exaustão, Brody perdeu cerca de 17 quilos em pouco tempo. Ao final da preparação, pesava apenas 62 quilos, encontrava-se constantemente fatigado e com níveis de energia drasticamente reduzidos. O impacto emocional foi igualmente severo.

“Foi um período muito difícil”, confessou o ator. “Eu não tinha mais nada que me reconfortasse. Não havia comida, nem pessoas queridas com quem conversar. Eu lia o tempo todo as memórias de Władysław Szpilman. Fiquei profundamente deprimido com os horrores que ele enfrentou.”

Esse estado de isolamento e fragilidade, embora doloroso, acabou se refletindo de maneira poderosa na tela. A interpretação de Brody é marcada por contenção, olhares vazios, gestos mínimos, uma atuação que comunica mais pelo silêncio do que pelas palavras, exatamente como exigia a história.

A dedicação radical valeu a pena. O Pianista tornou-se um dos filmes mais importantes sobre o Holocausto já realizados e foi amplamente aclamado pela crítica internacional. Em 2003, Adrien Brody entrou para a história ao receber o Oscar de Melhor Ator, tornando-se, até hoje, o mais jovem vencedor da categoria.

Mais do que um prêmio, sua performance permanece como um exemplo extremo de entrega artística, um lembrete de que, em raras ocasiões, alguns atores realmente sacrificam tudo para dar voz àqueles que quase foram silenciados pela história.