Todos os dias um amor morre. Quase nunca
percebemos, mas todos os dias algum sentimento se apaga silenciosamente dentro
de alguém. Às vezes, a morte chega devagar, discreta, quase indolor, desgastada
pela rotina, pelas mesmas palavras repetidas, pelos silêncios que se acumulam
durante anos.
Outras vezes, acontece de forma explosiva,
dramática, como nas tragédias que parecem sair de novelas antigas: portas
batendo, vozes alteradas, lágrimas incontidas e discussões capazes de
atravessar paredes e acordar até o mais distraído dos vizinhos.
Há amores perecendo em camas de motel, outros diante da televisão ligada num domingo
qualquer. Morrem na ausência do beijo antes de dormir, na falta das mãos
entrelaçadas, nos olhares que já não encontram abrigo um no outro.
Morrem lentamente, deixando nos lábios apenas
o gosto amargo das lágrimas e das palavras que nunca foram ditas. Muitos amores
desaparecem gradualmente: telefonemas cada vez mais raros, mensagens mais frias,
cartas mais curtas, abraços mecânicos, beijos sem calor.
Morrem de fome emocional, de abandono
silencioso, de uma inanição afetiva que consome tudo sem fazer alarde. Todos os
dias um amor chega ao fim. Às vezes com estrondo; quase sempre com um suspiro
cansado.
E nós, românticos mais no discurso do que na
prática, insistimos em acreditar que certos sentimentos são eternos, mesmo
quando já não existe vida dentro deles.
Talvez não
exista dor maior do que perceber o fracasso de um amor. Reconhecer que algo que
um dia foi abrigo, sonho e promessa agora não passa de lembrança. Ainda assim,
a vida ensina, mesmo quando ensina pela perda. E a lição permanece dura e
inevitável: amores também morrem.
Alguns são
assassinados lentamente. Tombam sob a lâmina do tédio, o veneno da indiferença,
a crueldade do desprezo ou os disparos da traição. E, como em todo crime, ficam
evidências espalhadas pelo caminho: presentes devolvidos em sacolas
esquecidas, o relógio fazendo eco numa casa silenciosa, o vazio constrangedor
após uma discussão sem vencedores.
Todos nós, em
algum momento, fomos culpados pela morte de um amor. Há quem carregue essa
culpa em silêncio, escondendo-se do mundo e de si mesmo. Outros transformam a
dor em espetáculo, despejando mágoas nos ouvidos cansados de amigos, garçons ou
desconhecidos.
Existem ainda os que negam qualquer
responsabilidade e seguem em busca de novos romances, como quem troca de roupa,
sem remorso, sem reflexão, sem cicatrizes aparentes.
E há aqueles que
transformam suas feridas em discursos prontos, escrevendo fórmulas milagrosas
sobre o amor perfeito, como se sentimentos coubessem em receitas. Vendem
ilusões embaladas em frases bonitas para corações desesperados por esperança.
Existem os
amores que imploram por um fim digno, como cavalos feridos incapazes de
continuar correndo. Existem também os amores-zumbis: relações que morreram há
muito tempo, mas continuam caminhando por pura insistência.
Sobrevivem em camas separadas, em beijos
protocolares, em diálogos automáticos e em silêncios intermináveis. São
relações sustentadas apenas pelo hábito, pelo medo da solidão ou pela
dificuldade de aceitar o inevitável.
Há ainda os
amores-vegetais, presos numa eterna letargia. Vivem mais da imaginação do que
da realidade. São paixões platônicas que atravessam décadas, lembranças
idealizadas de alguém da adolescência, fantasias alimentadas por retratos
antigos, músicas nostálgicas ou sonhos impossíveis.
Mas talvez isso nem seja amor de verdade.
Porque amor que vive apenas na imaginação jamais conhece o peso, a beleza e as
imperfeições da vida real.
E, por fim,
existem os amores-fênix. Raros, quase lendários. São aqueles que sobrevivem ao
desgaste do tempo, às contas acumuladas, às frustrações cotidianas, às brigas
sem sentido, ao cansaço das rotinas e à paixão que inevitavelmente muda de
forma ao longo dos anos.
Mesmo feridos, renascem. Mesmo cansados,
permanecem. Encontram força onde parecia não existir mais nada. São amores que
resistem à televisão ligada no fim do dia, às roupas espalhadas pela casa, às
diferenças de opinião, às fases difíceis e às imperfeições inevitáveis de
qualquer convivência humana.
Não porque sejam perfeitos, mas justamente
porque aprenderam a sobreviver apesar das falhas. Muitos duvidam que esses
amores existam. Alguns os tratam como lendas, como unicórnios impossíveis de
encontrar. Belos demais para serem reais.
Mas prefiro acreditar que eles existem,
ainda que raros. Porque, no fundo, talvez seja essa esperança que continue
mantendo tantas pessoas tentando, insistindo e acreditando no amor, mesmo
após vê-lo morrer tantas vezes.









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