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sexta-feira, maio 22, 2026

Pequeno tratado sobre a mortalidade do amor.






Todos os dias um amor morre. Quase nunca percebemos, mas todos os dias algum sentimento se apaga silenciosamente dentro de alguém. Às vezes, a morte chega devagar, discreta, quase indolor, desgastada pela rotina, pelas mesmas palavras repetidas, pelos silêncios que se acumulam durante anos.

Outras vezes, acontece de forma explosiva, dramática, como nas tragédias que parecem sair de novelas antigas: portas batendo, vozes alteradas, lágrimas incontidas e discussões capazes de atravessar paredes e acordar até o mais distraído dos vizinhos.

Há amores perecendo em camas de motel, outros diante da televisão ligada num domingo qualquer. Morrem na ausência do beijo antes de dormir, na falta das mãos entrelaçadas, nos olhares que já não encontram abrigo um no outro.

Morrem lentamente, deixando nos lábios apenas o gosto amargo das lágrimas e das palavras que nunca foram ditas. Muitos amores desaparecem gradualmente: telefonemas cada vez mais raros, mensagens mais frias, cartas mais curtas, abraços mecânicos, beijos sem calor.

Morrem de fome emocional, de abandono silencioso, de uma inanição afetiva que consome tudo sem fazer alarde. Todos os dias um amor chega ao fim. Às vezes com estrondo; quase sempre com um suspiro cansado.

E nós, românticos mais no discurso do que na prática, insistimos em acreditar que certos sentimentos são eternos, mesmo quando já não existe vida dentro deles.

Talvez não exista dor maior do que perceber o fracasso de um amor. Reconhecer que algo que um dia foi abrigo, sonho e promessa agora não passa de lembrança. Ainda assim, a vida ensina, mesmo quando ensina pela perda. E a lição permanece dura e inevitável: amores também morrem.

Alguns são assassinados lentamente. Tombam sob a lâmina do tédio, o veneno da indiferença, a crueldade do desprezo ou os disparos da traição. E, como em todo crime, ficam evidências espalhadas pelo caminho: presentes devolvidos em sacolas esquecidas, o relógio fazendo eco numa casa silenciosa, o vazio constrangedor após uma discussão sem vencedores.

Todos nós, em algum momento, fomos culpados pela morte de um amor. Há quem carregue essa culpa em silêncio, escondendo-se do mundo e de si mesmo. Outros transformam a dor em espetáculo, despejando mágoas nos ouvidos cansados de amigos, garçons ou desconhecidos.

Existem ainda os que negam qualquer responsabilidade e seguem em busca de novos romances, como quem troca de roupa, sem remorso, sem reflexão, sem cicatrizes aparentes.

E há aqueles que transformam suas feridas em discursos prontos, escrevendo fórmulas milagrosas sobre o amor perfeito, como se sentimentos coubessem em receitas. Vendem ilusões embaladas em frases bonitas para corações desesperados por esperança.

Existem os amores que imploram por um fim digno, como cavalos feridos incapazes de continuar correndo. Existem também os amores-zumbis: relações que morreram há muito tempo, mas continuam caminhando por pura insistência.

Sobrevivem em camas separadas, em beijos protocolares, em diálogos automáticos e em silêncios intermináveis. São relações sustentadas apenas pelo hábito, pelo medo da solidão ou pela dificuldade de aceitar o inevitável.

Há ainda os amores-vegetais, presos numa eterna letargia. Vivem mais da imaginação do que da realidade. São paixões platônicas que atravessam décadas, lembranças idealizadas de alguém da adolescência, fantasias alimentadas por retratos antigos, músicas nostálgicas ou sonhos impossíveis.

Mas talvez isso nem seja amor de verdade. Porque amor que vive apenas na imaginação jamais conhece o peso, a beleza e as imperfeições da vida real.

E, por fim, existem os amores-fênix. Raros, quase lendários. São aqueles que sobrevivem ao desgaste do tempo, às contas acumuladas, às frustrações cotidianas, às brigas sem sentido, ao cansaço das rotinas e à paixão que inevitavelmente muda de forma ao longo dos anos.

Mesmo feridos, renascem. Mesmo cansados, permanecem. Encontram força onde parecia não existir mais nada. São amores que resistem à televisão ligada no fim do dia, às roupas espalhadas pela casa, às diferenças de opinião, às fases difíceis e às imperfeições inevitáveis de qualquer convivência humana.

Não porque sejam perfeitos, mas justamente porque aprenderam a sobreviver apesar das falhas. Muitos duvidam que esses amores existam. Alguns os tratam como lendas, como unicórnios impossíveis de encontrar. Belos demais para serem reais.

Mas prefiro acreditar que eles existem, ainda que raros. Porque, no fundo, talvez seja essa esperança que continue mantendo tantas pessoas tentando, insistindo e acreditando no amor, mesmo após vê-lo morrer tantas vezes.

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