Jason Miller: o ator e dramaturgo que marcou o terror e o teatro americano.
Uma das cenas mais marcantes de O Exorcista (1973)
— e que continua grudada na memória de muita gente — é aquela em que a menina
possuída vomita uma sopa verde no rosto do padre Damien Karras.
O ator por trás do sacerdote atormentado era Jason
Miller, um homem de presença intensa e olhar sofrido que, naquele momento,
parecia carregar todo o peso da dúvida e da fé.
Nascido como John Anthony Miller Jr. em 22 de abril
de 1939, no Queens, Nova York, ele era filho de uma professora e de um
eletricista de ascendência predominantemente irlandesa católica. Ainda bebê, em
1941, a família se mudou para Scranton, na Pensilvânia, cidade que moldaria
profundamente sua vida e sua obra.
Educado no colégio St. Patrick e formado pela
Universidade de Scranton (com estudos adicionais na Catholic University of
America), Miller trabalhou em diversos empregos comuns — garçom, motorista de
caminhão, mensageiro — enquanto escrevia peças de teatro nos intervalos.
Sua grande virada veio em 1972–1973 com That
Championship Season (Essa Temporada de Campeonato), uma peça poderosa sobre o
reencontro de ex-jogadores de basquete do colégio e seu treinador, 25 anos
após uma vitória estadual.
A obra, inspirada nas próprias experiências de
Miller como jogador em Scranton, explora temas como amizade, fracasso, mentiras
e o peso do “sonho americano”.
A peça foi um fenômeno: ganhou o Prêmio Pulitzer de
Drama, o Tony Award de Melhor Peça e o New York Drama Critics Circle Award. No
mesmo ano mágico de 1973, Miller foi convidado para interpretar o Padre Karras
em O Exorcista, de William Friedkin.
Era seu primeiro grande papel no cinema e rendeu
uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Sua atuação como o padre
psiquiatra em crise de fé se tornou icônica.
Após o sucesso, recusou o papel principal em Taxi
Driver (que acabou com Robert De Niro) para priorizar outros projetos, como The
Nickel Ride. Sua carreira no cinema foi irregular porque ele sempre preferiu o
teatro, onde se sentia mais à vontade.
Em 1982, dirigiu a adaptação cinematográfica de
That Championship Season, com um elenco de peso: Robert Mitchum (substituindo
William Holden, que faleceu antes das filmagens), Martin Sheen, Stacy Keach,
Bruce Dern e Paul Sorvino. O filme não repetiu o sucesso da peça,
mas reforçou sua ligação com as raízes.
Miller foi co-fundador e, a partir de 1982, diretor
artístico do Scranton Public Theatre, devolvendo à sua cidade adotiva o amor
pelo palco. Lá, dirigiu e atuou em diversas produções, mantendo viva a cena
cultural local.
Era pai de atores conhecidos: Jason Patric (do
primeiro casamento com Linda Gleason, filha de Jackie Gleason) e Joshua Miller
(da segunda esposa, Susan Bernard), além de outros filhos.
Sua vida sempre oscilou entre Hollywood e as ruas
tranquilas de Scranton. Em maio de 2001, aos 62 anos, Jason Miller sofreu um
ataque cardíaco fulminante na cidade que tanto amava. Estava se preparando para
interpretar Oscar Madison em The Odd Couple no festival de teatro de verão.
Morreu fazendo o que mais gostava: vivendo o teatro.
Hoje, Jason Miller é lembrado não só pela icônica
cena de vômito em O Exorcista ou pela indicação ao Oscar, mas como um artista
que soube capturar, com honestidade brutal, as glórias passageiras e as
frustrações profundas da vida americana. Sua obra continua a emocionar porque
fala de algo universal: o que sobra quando as luzes da vitória se apagam.










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