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quarta-feira, setembro 09, 2026

Domingos Montagner - Ator Morreu Afogado no Rio São Francisco


 

Domingos Montagner: do picadeiro à televisão

Domingos Montagner foi um daqueles artistas cuja trajetória parecia ter sido construída em várias vidas: palhaço, ator, teatrólogo, produtor e empresário, começou longe dos holofotes da televisão e conquistou o público brasileiro já maduro, quando sua carreira televisiva finalmente ganhou grande projeção.

Domingos Montagner Filho nasceu em São Paulo, em 26 de fevereiro de 1962. Antes de se tornar conhecido nacionalmente como ator, construiu uma sólida trajetória no teatro e no circo. Sua relação com a arte circense era tão importante que, mesmo depois do sucesso na televisão, continuava se definindo também como palhaço.

Sua carreira artística começou no circo, e ele participou da criação da Companhia La Mínima, ao lado de Fernando Sampaio, grupo que se tornou importante na renovação da linguagem do circo e do teatro no Brasil.

Foi somente mais tarde que Domingos chegou à televisão. Em 2011, aos 49 anos, ganhou seu primeiro grande papel em uma novela, interpretando o capitão Herculano em Cordel Encantado. O personagem chamou a atenção do público e abriu definitivamente as portas da televisão para o ator.

Depois vieram trabalhos como O Brado Retumbante, Salve Jorge, Joia Rara e Sete Vidas, novela na qual interpretou Miguel, um homem que descobre ter vários filhos decorrentes de uma doação de sêmen realizada na juventude.

Santo, seu último personagem

Em 2016, Domingos Montagner viveu Santo dos Anjos, protagonista de Velho Chico, novela dirigida por Luiz Fernando Carvalho. O personagem acabou se tornando inseparável da própria memória do ator. Santo era um homem ligado à terra, ao rio, à família e às lutas de sua região.

E existe uma coincidência trágica que até hoje impressiona: o personagem Santo também desaparecia nas águas do Rio São Francisco na história da novela. A realidade, porém, seria muito mais dolorosa.

A tragédia no Rio São Francisco

Em 15 de setembro de 2016, durante uma pausa nas gravações de Velho Chico, Domingos almoçou e foi nadar no Rio São Francisco, em Canindé de São Francisco, Sergipe. Ele estava acompanhado da atriz Camila Pitanga.

Durante o mergulho, Montagner não conseguiu retornar à superfície. Camila percebeu seu desaparecimento e comunicou imediatamente à produção, dando início às buscas, que envolveram bombeiros, policiais, pescadores e aeronaves.

Horas depois, o corpo do ator foi localizado submerso, preso entre pedras. O laudo apontou asfixia mecânica provocada por afogamento. A investigação concluiu que se tratou de uma morte acidental, embora tenham sido apontadas irregularidades relacionadas à sinalização dos riscos existentes no local. Domingos tinha apenas 54 anos.

A notícia causou enorme comoção no Brasil. Não era apenas a morte de um ator que estava no auge da carreira. Era a perda repentina de um artista que havia chegado à televisão após décadas dedicadas ao teatro e ao circo e que ainda tinha muito a oferecer.

Uma carreira interrompida no auge

Talvez uma das maiores injustiças da história de Domingos Montagner seja justamente essa: ele demorou para alcançar a televisão, mas, quando chegou, rapidamente conquistou seu espaço.

Não precisou de décadas de novelas para se tornar reconhecido. Sua presença, sua voz, seu porte físico e, sobretudo, sua experiência teatral conferiam aos personagens uma força particular.

Em Velho Chico, sua morte aconteceu quando a novela estava próxima do fim. A produção decidiu manter a presença de Santo na narrativa de uma maneira simbólica, utilizando recursos de linguagem para homenagear o ator.

O homem por trás do personagem

Domingos Montagner era casado com Luciana Lima, com quem teve três filhos. Sua morte deixou uma família, amigos, colegas de profissão e milhões de espectadores diante de uma ausência que aconteceu de maneira brutalmente inesperada. Há algo profundamente simbólico em sua história.

Um homem que passou a vida trabalhando com a arte de representar terminou sua trajetória justamente no cenário que havia se tornado parte de sua última grande personagem: o Rio São Francisco. Mas Domingos não ficou apenas associado à tragédia.

Ficou associado ao palhaço que descobriu a dignidade do riso, ao artista de teatro que buscou a excelência, ao ator que conquistou a televisão depois dos 40 anos e ao homem que, em pouco mais de uma década de televisão, construiu personagens que permanecem na memória do público.

Sua morte nos lembra, de maneira dolorosa, como a vida pode mudar em poucos segundos. Naquele 15 de setembro de 2016, Domingos Montagner saiu para um mergulho durante uma pausa nas gravações. Não voltaria.

E talvez seja essa a parte mais cruel de qualquer despedida: a pessoa não sabe que aquele momento aparentemente comum será o último. Domingos Montagner morreu, mas Santo permaneceu.

E, de certa forma, permanece também o artista que encontrou no palco, no picadeiro e diante das câmeras uma maneira de continuar vivendo por meio daquilo que deixou. Alguns artistas partem. Seus personagens, porém, continuam nos visitando.


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