Domingos Montagner: do picadeiro à televisão
Domingos Montagner foi um
daqueles artistas cuja trajetória parecia ter sido construída em várias vidas: palhaço,
ator, teatrólogo, produtor e empresário, começou longe dos holofotes da
televisão e conquistou o público brasileiro já maduro, quando sua carreira
televisiva finalmente ganhou grande projeção.
Domingos Montagner Filho nasceu em São Paulo, em 26 de fevereiro de 1962.
Antes de se tornar conhecido nacionalmente como ator, construiu uma sólida
trajetória no teatro e no circo. Sua
relação com a arte circense era tão importante que, mesmo depois do sucesso na
televisão, continuava se definindo também como palhaço.
Sua carreira
artística começou no circo, e ele participou da criação da Companhia La Mínima, ao lado de Fernando
Sampaio, grupo que se tornou importante na renovação da linguagem do circo e do
teatro no Brasil.
Foi somente mais
tarde que Domingos chegou à televisão. Em 2011,
aos 49 anos, ganhou seu primeiro grande papel em uma novela, interpretando o
capitão Herculano em Cordel Encantado.
O personagem chamou a atenção do público e abriu definitivamente as portas da
televisão para o ator.
Depois vieram
trabalhos como O Brado Retumbante, Salve Jorge, Joia Rara e Sete
Vidas, novela na qual interpretou Miguel, um homem que descobre
ter vários filhos decorrentes de uma doação de sêmen realizada na juventude.
Santo, seu último personagem
Em 2016,
Domingos Montagner viveu Santo dos Anjos,
protagonista de Velho Chico, novela dirigida por Luiz Fernando
Carvalho. O personagem acabou se tornando inseparável da própria memória do ator.
Santo era um homem ligado à terra, ao rio, à família e às lutas de sua região.
E existe uma coincidência trágica que até
hoje impressiona: o personagem Santo também desaparecia nas
águas do Rio São Francisco na história da novela. A
realidade, porém, seria muito mais dolorosa.
A tragédia no Rio São Francisco
Em 15 de setembro de 2016, durante uma pausa
nas gravações de Velho Chico, Domingos almoçou e foi nadar no Rio São Francisco, em Canindé de São
Francisco, Sergipe. Ele estava acompanhado da atriz Camila
Pitanga.
Durante o
mergulho, Montagner não conseguiu retornar à superfície. Camila percebeu seu
desaparecimento e comunicou imediatamente à produção, dando início às buscas,
que envolveram bombeiros, policiais, pescadores e aeronaves.
Horas depois, o
corpo do ator foi localizado submerso, preso entre pedras. O laudo apontou asfixia mecânica provocada por afogamento.
A investigação concluiu que se tratou de uma morte acidental, embora tenham
sido apontadas irregularidades relacionadas à sinalização dos riscos existentes
no local. Domingos tinha apenas 54 anos.
A notícia causou
enorme comoção no Brasil. Não era apenas a morte de um ator que estava no auge
da carreira. Era a perda repentina de um artista que havia chegado à televisão
após décadas dedicadas ao teatro e ao circo e que ainda tinha muito a
oferecer.
Uma carreira interrompida no auge
Talvez uma das
maiores injustiças da história de Domingos Montagner seja justamente essa: ele demorou para alcançar a televisão, mas, quando chegou,
rapidamente conquistou seu espaço.
Não precisou de
décadas de novelas para se tornar reconhecido. Sua presença, sua voz, seu porte
físico e, sobretudo, sua experiência teatral conferiam aos personagens uma
força particular.
Em Velho
Chico, sua morte aconteceu quando a novela estava próxima do fim. A
produção decidiu manter a presença de Santo na narrativa de uma maneira
simbólica, utilizando recursos de linguagem para homenagear o ator.
O homem por trás do personagem
Domingos
Montagner era casado com Luciana Lima,
com quem teve três filhos. Sua morte deixou uma família, amigos, colegas de
profissão e milhões de espectadores diante de uma ausência que aconteceu de
maneira brutalmente inesperada. Há algo profundamente simbólico em sua
história.
Um homem que passou a vida
trabalhando com a arte de representar terminou sua trajetória justamente no
cenário que havia se tornado parte de sua última grande personagem: o Rio São
Francisco. Mas Domingos não ficou apenas associado à
tragédia.
Ficou associado
ao palhaço que descobriu a dignidade do riso, ao artista de
teatro que buscou a excelência, ao ator que conquistou a televisão depois dos
40 anos e ao homem que, em pouco mais de uma década de televisão, construiu
personagens que permanecem na memória do público.
Sua morte nos
lembra, de maneira dolorosa, como a vida pode mudar em poucos segundos. Naquele
15 de setembro de 2016, Domingos Montagner
saiu para um mergulho durante uma pausa nas gravações. Não voltaria.
E talvez seja
essa a parte mais cruel de qualquer despedida: a
pessoa não sabe que aquele momento aparentemente comum será o último. Domingos
Montagner morreu, mas Santo permaneceu.
E, de certa forma, permanece também o artista
que encontrou no palco, no picadeiro e diante das câmeras uma maneira de
continuar vivendo por meio daquilo que deixou. Alguns artistas partem. Seus personagens,
porém, continuam nos visitando.










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