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sexta-feira, maio 15, 2026

Embriagado


 

“Embriagai-vos”, de Charles Baudelaire, é um dos textos mais conhecidos da literatura moderna. Nele, o autor não fala apenas da embriaguez literal do vinho, mas de tudo aquilo que dá sentido à existência humana e nos ajuda a suportar o peso inevitável do tempo.

A embriaguez, em sua visão poética, pode nascer da arte, da beleza, da paixão, da espiritualidade, dos sonhos ou da própria virtude. Trata-se de um convite à intensidade da vida.

A necessidade de se embriagar da Vida

É preciso estar sempre embriagado. Essa é a grande questão. Para não sentir o peso esmagador do Tempo — esse fardo invisível que lentamente curva os ombros e desgasta a alma — é necessário mergulhar em algo que mantenha o espírito desperto e vivo.

Mas embriagar-se de quê?

De vinho, de poesia, de virtude, de amor, de esperança, de sonhos ou de qualquer força capaz de incendiar o coração humano. O importante é não permitir que a rotina transforme a existência em uma caminhada mecânica e sem sentido.

A vida, muitas vezes, nos empurra para dias repetitivos, silenciosos e cansativos. O tempo avança sem piedade: envelhecemos, perdemos pessoas, acumulamos lembranças e carregamos cicatrizes invisíveis.

Diante disso, Baudelaire propõe uma espécie de resistência poética. Embriagar-se, para ele, significa permanecer sensível ao encanto do mundo, mesmo quando tudo parece cinzento.

E quando a embriaguez desaparecer — porque inevitavelmente desaparecerá —, quando você despertar nos degraus frios de um palácio, na grama úmida de um fosso ou na solidão silenciosa do próprio quarto, volte-se novamente para aquilo que vive e pulsa ao seu redor.

Pergunte ao vento que atravessa as árvores. Pergunte às ondas que nunca cessam seu movimento. Pergunte às estrelas distantes, aos pássaros em voo, ao relógio que insiste em avançar. Pergunte a tudo o que canta, geme, rola, fala ou sonha.

Todos responderão a mesma coisa:

“É hora de embriagar-se.”

Porque somente assim o ser humano deixa de ser escravo do tempo. Somente assim conseguimos suportar os dias difíceis sem perder completamente a capacidade de sentir beleza, encanto e esperança.

Baudelaire não faz uma apologia ao excesso, mas sim à intensidade da experiência humana. Sua mensagem permanece atual justamente porque fala de um vazio que atravessa séculos: o medo de viver uma vida sem paixão, sem significado e sem poesia.

No fundo, todos buscamos alguma forma de embriaguez — algo que nos faça esquecer por instantes o peso do mundo e recordar que ainda estamos vivos.

E talvez seja exatamente essa a grande arte da existência: encontrar aquilo que alimenta a alma e nos impede de endurecer diante da passagem inevitável do tempo.

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