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sexta-feira, junho 28, 2024

Dina Sannichar


 Imagem: Sanichar quando jovem

Dina Sanichar (1860 ou 1861 – 1895) ficou conhecido como um dos mais famosos casos de “crianças selvagens”, pessoas que cresceram afastadas do convívio humano e sobreviveram em ambientes naturais, muitas vezes convivendo com animais.

Sua história, ao mesmo tempo fascinante e triste, levanta reflexões profundas sobre a natureza humana e a importância da convivência social nos primeiros anos de vida.

Ele foi encontrado em fevereiro de 1867, quando tinha cerca de seis anos, vivendo entre lobos em uma caverna na região de Bulandshahr, no atual estado de Uttar Pradesh, na Índia.

Um grupo de caçadores que explorava a floresta avistou a cena incomum: um menino magro, sujo e desgrenhado, movendo-se de quatro e convivendo com uma matilha de lobos como se fosse parte dela. Após algum tempo, os caçadores conseguiram capturá-lo e levá-lo para a cidade.

Acredita-se que Dina tenha sido abandonado ou se perdido ainda muito pequeno, sendo então acolhido pelos lobos, que o criaram como um filhote. Na Índia do século XIX, durante o período colonial britânico, histórias de crianças encontradas na selva não eram totalmente incomuns, mas o caso de Sanichar se destacou por ser documentado por autoridades e missionários.

Após ser capturado, o menino foi levado ao magistrado britânico William Lowe, que decidiu enviá-lo ao Orfanato Secundra, em Agra. Lá, ele recebeu o nome de “Sanichar”, que significa “sábado” em hindi, pois esse era o dia em que havia chegado ao orfanato.

A vida entre humanos foi extremamente difícil para Dina Sanichar. Quando chegou ao orfanato, ele andava de quatro, rosnava, uivava e se recusava a comer comida cozida, preferindo carne crua.

Não falava nenhuma palavra e não parecia compreender a linguagem humana. Os cuidadores tentaram durante anos ensiná-lo a falar, a usar talheres, a se comportar como as outras crianças, mas ele nunca conseguiu desenvolver a fala.

Com o tempo, ele aprendeu algumas coisas básicas: passou a andar ereto, usar roupas e comer alimentos preparados. Mesmo assim, continuou sendo uma pessoa isolada, silenciosa e distante.

Relatos da época dizem que ele observava tudo ao redor com atenção, mas raramente demonstrava emoções ou interagia como as outras pessoas. Era como se vivesse sempre entre dois mundos: o humano e o selvagem.

No orfanato havia outro menino encontrado em circunstâncias semelhantes, também conhecido como um “menino-lobo”. Eles conviviam no mesmo espaço, às vezes uivavam e apresentavam comportamentos parecidos, mas, curiosamente, não desenvolveram uma amizade profunda, provavelmente porque ambos tinham grandes dificuldades de socialização.

Um dos aspectos mais tristes da vida de Sanichar foi o vício em cigarro. Em algum momento no orfanato, ele começou a fumar, hábito comum na época e que não era visto com o mesmo perigo que hoje.

Ele se tornou um fumante pesado e acabou desenvolvendo tuberculose, uma doença muito comum e mortal no século XIX, especialmente em lugares fechados como instituições e orfanatos.

Dina Sanichar faleceu em 1895, com cerca de 34 ou 35 anos. Sua vida foi relativamente curta e marcada por dificuldades desde o início até o fim.

A história de Dina Sanichar ficou conhecida no mundo todo e muitos acreditam que ela possa ter inspirado o personagem Mowgli, do livro O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, publicado em 1894.

Kipling nasceu na Índia e provavelmente conhecia histórias sobre crianças criadas por lobos. Embora não exista prova definitiva de que Sanichar tenha sido a inspiração direta, as semelhanças são impressionantes.

O caso de Dina Sanichar continua sendo estudado e lembrado porque levanta uma questão importante: o que nos torna realmente humanos? Sua vida mostrou que a linguagem, o comportamento social e até as emoções são profundamente influenciados pela convivência com outras pessoas desde a infância. Sem esse contato, o ser humano pode sobreviver, mas dificilmente se desenvolve plenamente como parte de uma sociedade.

A história do menino-lobo da Índia não é apenas curiosa ou exótica. Ela é, acima de tudo, uma história triste sobre solidão, sobrevivência e sobre como o ser humano precisa de outros seres humanos para se tornar, de fato, humano.

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