Dina Sanichar (1860 ou 1861 –
1895) ficou conhecido como um dos mais famosos casos de “crianças selvagens”,
pessoas que cresceram afastadas do convívio humano e sobreviveram em ambientes
naturais, muitas vezes convivendo com animais.
Sua história, ao mesmo tempo
fascinante e triste, levanta reflexões profundas sobre a natureza humana e a
importância da convivência social nos primeiros anos de vida.
Ele foi encontrado em
fevereiro de 1867, quando tinha cerca de seis anos, vivendo entre lobos em uma
caverna na região de Bulandshahr, no atual estado de Uttar Pradesh, na Índia.
Um grupo de caçadores que
explorava a floresta avistou a cena incomum: um menino magro, sujo e
desgrenhado, movendo-se de quatro e convivendo com uma matilha de lobos como se
fosse parte dela. Após algum tempo, os caçadores conseguiram capturá-lo e
levá-lo para a cidade.
Acredita-se que Dina tenha
sido abandonado ou se perdido ainda muito pequeno, sendo então acolhido pelos
lobos, que o criaram como um filhote. Na Índia do século XIX, durante o período
colonial britânico, histórias de crianças encontradas na selva não eram
totalmente incomuns, mas o caso de Sanichar se destacou por ser
documentado por autoridades e missionários.
Após ser capturado, o menino
foi levado ao magistrado britânico William Lowe, que decidiu enviá-lo ao
Orfanato Secundra, em Agra. Lá, ele recebeu o nome de “Sanichar”, que significa
“sábado” em hindi, pois esse era o dia em que havia chegado ao orfanato.
A vida entre humanos foi
extremamente difícil para Dina Sanichar. Quando chegou ao orfanato, ele andava
de quatro, rosnava, uivava e se recusava a comer comida cozida, preferindo
carne crua.
Não falava nenhuma palavra e
não parecia compreender a linguagem humana. Os cuidadores tentaram durante anos
ensiná-lo a falar, a usar talheres, a se comportar como as outras crianças, mas
ele nunca conseguiu desenvolver a fala.
Com o tempo, ele aprendeu
algumas coisas básicas: passou a andar ereto, usar roupas e comer alimentos
preparados. Mesmo assim, continuou sendo uma pessoa isolada, silenciosa e
distante.
Relatos da época dizem que ele
observava tudo ao redor com atenção, mas raramente demonstrava emoções ou interagia
como as outras pessoas. Era como se vivesse sempre entre dois mundos: o humano
e o selvagem.
No orfanato havia outro menino
encontrado em circunstâncias semelhantes, também conhecido como um
“menino-lobo”. Eles conviviam no mesmo espaço, às vezes uivavam e apresentavam
comportamentos parecidos, mas, curiosamente, não desenvolveram uma amizade
profunda, provavelmente porque ambos tinham grandes dificuldades de
socialização.
Um dos aspectos mais tristes
da vida de Sanichar foi o vício em cigarro. Em algum momento no orfanato, ele
começou a fumar, hábito comum na época e que não era visto com o mesmo perigo
que hoje.
Ele se tornou um fumante
pesado e acabou desenvolvendo tuberculose, uma doença muito comum e mortal no
século XIX, especialmente em lugares fechados como instituições e orfanatos.
Dina Sanichar faleceu em 1895,
com cerca de 34 ou 35 anos. Sua vida foi relativamente curta e marcada por
dificuldades desde o início até o fim.
A história de Dina Sanichar
ficou conhecida no mundo todo e muitos acreditam que ela possa ter inspirado o
personagem Mowgli, do livro O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, publicado em
1894.
Kipling nasceu na Índia e
provavelmente conhecia histórias sobre crianças criadas por lobos. Embora não
exista prova definitiva de que Sanichar tenha sido a inspiração direta, as
semelhanças são impressionantes.
O caso de Dina Sanichar
continua sendo estudado e lembrado porque levanta uma questão importante: o que
nos torna realmente humanos? Sua vida mostrou que a linguagem, o comportamento
social e até as emoções são profundamente influenciados pela convivência com
outras pessoas desde a infância. Sem esse contato, o ser humano pode
sobreviver, mas dificilmente se desenvolve plenamente como parte de uma
sociedade.
A história do menino-lobo da Índia não é apenas curiosa ou exótica. Ela é, acima de tudo, uma história triste sobre solidão, sobrevivência e sobre como o ser humano precisa de outros seres humanos para se tornar, de fato, humano.









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