Quando a lei deixa de proteger a liberdade
Há uma reflexão de John Locke que continua extremamente atual: “A
finalidade da lei não é abolir ou conter, mas preservar e ampliar a liberdade.”
Para Locke, a lei não deveria existir para transformar cidadãos em súditos
submissos, mas para protegê-los da arbitrariedade, da violência e da vontade
daqueles que exercem o poder.
É justamente por isso que devemos permanecer atentos quando surgem
propostas que, em vez de proteger o cidadão, parecem caminhar na direção de
limitar sua capacidade de criticar, questionar e até mesmo ridicularizar
aqueles que ocupam cargos públicos.
Não se trata de defender a ofensa gratuita, a mentira deliberada, a
ameaça ou qualquer outra conduta que já esteja sujeita às responsabilidades
previstas em lei. Uma sociedade democrática precisa, sim, estabelecer limites
para proteger a dignidade e os direitos das pessoas.
Mas existe uma diferença fundamental entre responsabilizar alguém por um
crime ou abuso e tentar transformar a crítica política em crime simplesmente
porque ela incomoda quem está no poder.
Quem escolhe a vida pública precisa compreender que estará sujeito ao
olhar da sociedade. Políticos não são proprietários do poder que exercem; são
representantes temporários de uma população que tem o direito de fiscalizar,
questionar, discordar e protestar.
O debate público nem sempre será elegante. Algumas discussões serão
ríspidas, outras serão duras e, infelizmente, algumas poderão descambar para a
grosseria. Isso faz parte da imperfeição humana.
Democracia não é um ambiente em que todos pensam da mesma maneira, mas um
espaço no qual pessoas diferentes podem expressar suas opiniões sem medo de
serem silenciadas pelo Estado.
Quando o poder público começa a tratar a crítica como ameaça, precisamos
perguntar: quem está sendo protegido – o cidadão ou o próprio poder?
Também precisamos refletir sobre a qualidade da atividade legislativa. O
tempo, os recursos e a energia do Parlamento pertencem à sociedade. Cada
projeto deveria responder a problemas reais, urgentes e relevantes para a
população.
Enquanto existem cidadãos enfrentando dificuldades com saúde, educação,
segurança, emprego, moradia, infraestrutura e tantos outros problemas concretos,
qualquer proposta legislativa cuja consequência seja restringir o espaço
da crítica política merece ser examinada com enorme cautela.
O Estado não pode se transformar em um escudo para proteger autoridades
das consequências de suas próprias decisões. E há algo ainda mais importante: uma
democracia não se sustenta apenas pela existência de leis; sustenta-se pela
legitimidade dessas leis, pelo respeito aos direitos fundamentais e pela
possibilidade de a própria sociedade questionar o poder.
Se uma lei for considerada injusta, abusiva ou incompatível com a
Constituição, o caminho democrático não é a violência nem a perseguição. É o
debate público, a mobilização cidadã, o questionamento jurídico, a atuação das
instituições e, quando necessário, a mudança da própria lei.
A obediência cega jamais foi sinônimo de cidadania. O cidadão não deve
ser tratado como alguém que precisa pedir permissão para pensar. A liberdade de
expressão não existe apenas para aqueles que dizem coisas agradáveis ao poder.
Ela existe, sobretudo, para garantir que o indivíduo possa dizer aquilo
que o poder preferiria não ouvir. Talvez seja justamente aí que reside a verdadeira
essência da democracia: o governante precisa aprender a conviver com a voz de
quem discorda dele.
Porque uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que ninguém
critica o Estado. É aquela em que ninguém precisa ter receio de criticá-lo. E
quando o Estado passa a se preocupar mais em controlar a voz dos cidadãos do
que em resolver os problemas dos cidadãos, alguma coisa fundamental começa a se
perder.
A liberdade não desaparece de uma vez. Às vezes, ela começa a
desaparecer silenciosamente, uma restrição de cada vez, até que as pessoas
percebam que já não podem dizer aquilo que antes diziam.
Por isso, devemos permanecer vigilantes. A lei deve proteger o cidadão
do abuso do poder – jamais proteger o poder da crítica do cidadão. No fim das
contas, a pergunta mais importante talvez seja simples:
Que tipo de Estado queremos deixar para as próximas gerações: um Estado
que nos proteja ou um Estado que nos ensine a ter receio dele?









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