Introdução do Livro Epitáfio — Francisco Silva Sousa.
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Aqui
jaz quem nasceu, lutou, confiou demais — e morreu. Agora, finalmente, existe de
outro modo.
Vive, — se é que ainda se pode chamar assim —, na única paz que realmente importa: a
paz sem retorno. Sem saudades que rasgam o peito, sem lembranças que sangram
durante a noite, sem traições que ecoam como facadas dadas no escuro por mãos
conhecidas.
As
promessas quebradas, os olhares fingidos, os sorrisos que escondiam cálculo, as
costas viradas no instante mais frágil — tudo isso ficou entre os vivos.
Aqui
embaixo, as traições não chegam. Elas se desfazem no silêncio. Viraram pó
antigo, esquecido, que nem o vento se preocupa em carregar.
Nada
faz falta. Não existe saudade da lealdade incompleta, nem do amor que se
revelou veneno disfarçado de cura.
Não
há necessidade de explicações tardias, dessas que chegam quando já não podem
consertar nada.
Nem
vingança. A vingança é apenas uma prisão vestida de justiça. O maior
alívio é perceber que a dor deixou de existir no instante em que deixou de ser
alimentada pela memória.
Lá
fora, o mundo continua. Os vivos ainda correm desesperados atrás de
promessas frágeis. Ainda juram eternidades que morrem em semanas. Ainda trocam
sentimentos verdadeiros por migalhas de atenção.
E
repetem. Erram. Traem. Voltam. Machucam. Pedem desculpas tarde demais.
Eu já encerrei o meu ciclo. Não participo. Não espero. Não
sinto o aperto no peito nem acordo assustado durante a madrugada.
Estou no sono sem sonhos. Sem pesadelos. Sem sobressaltos. Apenas silêncio. E, pela primeira vez, paz.














