Salmos 91:7 — “Mil cairão ao teu lado, e dez
mil à tua direita, mas tu não serás atingido.” Esse versículo é um dos mais
citados quando o assunto é proteção divina.
Ele aparece no Salmo 91, um texto poético e
consolador escrito em um contexto antigo, provavelmente inspirado em tempos de
guerra, epidemias ou ameaças constantes, como as pragas do Egito ou as batalhas
do povo de Israel.
A imagem é forte e hiperbólica: ao seu redor,
milhares caem — vítimas de peste, flechas ou calamidade —, mas você, o fiel que
“habita no esconderijo do Altíssimo”, fica intocado.
É como se o mundo desabasse, mas uma bolha
invisível te protegesse. A questão que me incomoda, e que muitos preferem não
tocar, é exatamente essa: por que tantos caem?
O salmo não explica o motivo da morte em
massa. Não pergunta se eram inocentes, se sofriam de uma peste que não escolhe
ninguém ou se eram inimigos em uma batalha.
O foco é apenas no protegido. Versículo 8
ainda completa: “Somente com os teus olhos contemplarás e verás a recompensa
dos ímpios.” Ou seja, você assiste ao sofrimento alheio como uma espécie de
“recompensa” pela sua fé.
É aqui que a violência da passagem se revela,
de forma quase desumana. Não é uma violência física direta de Deus matando, mas
uma violência simbólica: a normalização de que o sofrimento dos outros não
importa, desde que você esteja salvo.
O crente que recita isso com devoção costuma
ver apenas a bênção pessoal — “Deus me guarda!” — e aí está o problema. A fé
cega pode transformar um texto de conforto em uma espécie de egoísmo
espiritual: o importante é eu estar bem, o resto é “vontade de Deus” ou
“recompensa dos ímpios”.
Na prática, isso cria uma desconexão
perigosa. Milhões já recitaram esse salmo durante pestes históricas (da Peste
Negra à pandemia recente), guerras e desastres.
Ele traz alento, sim. Mas também pode
alimentar a ideia de que a proteção é um prêmio por ser “o escolhido”, enquanto
os que caem são, de alguma forma, menos dignos. E se não houver motivo?
E se forem apenas pessoas comuns, famílias
inteiras levadas por uma doença, soldados que não pediram para lutar, ou
simplesmente o azar da vida?
O salmo reflete uma visão antiga de mundo: o
deus tribal protege o seu povo fiel. Hoje, em um tempo de ciência e empatia,
essa seletividade soa cruel. Não questionamos a poesia ou o desejo humano de se
sentir seguro em meio ao caos. Questionamos é o preço emocional e ético:
ignorar o porquê de os dez mil caírem para celebrar que “eu não fui atingido”.
No fim, o versículo não é apenas sobre
proteção. É um espelho. Ele nos força a perguntar: que tipo de fé é essa que
consegue olhar para o lado, ver o sofrimento alheio e seguir em frente sem se
abalar?
Talvez a verdadeira coragem não esteja em se
sentir invulnerável, mas em se perguntar, com os pés no chão: “Por que eles
caíram… e eu, não?” E aí, sim, começa uma reflexão mais profunda — e mais
humana.









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