sábado, abril 04, 2026

“Mil cairão ao teu lado”: A violência escondida no Salmo 91



Salmos 91:7 — “Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido.” Esse versículo é um dos mais citados quando o assunto é proteção divina.

Ele aparece no Salmo 91, um texto poético e consolador escrito em um contexto antigo, provavelmente inspirado em tempos de guerra, epidemias ou ameaças constantes, como as pragas do Egito ou as batalhas do povo de Israel.

A imagem é forte e hiperbólica: ao seu redor, milhares caem — vítimas de peste, flechas ou calamidade —, mas você, o fiel que “habita no esconderijo do Altíssimo”, fica intocado.

É como se o mundo desabasse, mas uma bolha invisível te protegesse. A questão que me incomoda, e que muitos preferem não tocar, é exatamente essa: por que tantos caem?

O salmo não explica o motivo da morte em massa. Não pergunta se eram inocentes, se sofriam de uma peste que não escolhe ninguém ou se eram inimigos em uma batalha.

O foco é apenas no protegido. Versículo 8 ainda completa: “Somente com os teus olhos contemplarás e verás a recompensa dos ímpios.” Ou seja, você assiste ao sofrimento alheio como uma espécie de “recompensa” pela sua fé.

É aqui que a violência da passagem se revela, de forma quase desumana. Não é uma violência física direta de Deus matando, mas uma violência simbólica: a normalização de que o sofrimento dos outros não importa, desde que você esteja salvo.

O crente que recita isso com devoção costuma ver apenas a bênção pessoal — “Deus me guarda!” — e aí está o problema. A fé cega pode transformar um texto de conforto em uma espécie de egoísmo espiritual: o importante é eu estar bem, o resto é “vontade de Deus” ou “recompensa dos ímpios”.

Na prática, isso cria uma desconexão perigosa. Milhões já recitaram esse salmo durante pestes históricas (da Peste Negra à pandemia recente), guerras e desastres.

Ele traz alento, sim. Mas também pode alimentar a ideia de que a proteção é um prêmio por ser “o escolhido”, enquanto os que caem são, de alguma forma, menos dignos. E se não houver motivo?

E se forem apenas pessoas comuns, famílias inteiras levadas por uma doença, soldados que não pediram para lutar, ou simplesmente o azar da vida?

O salmo reflete uma visão antiga de mundo: o deus tribal protege o seu povo fiel. Hoje, em um tempo de ciência e empatia, essa seletividade soa cruel. Não questionamos a poesia ou o desejo humano de se sentir seguro em meio ao caos. Questionamos é o preço emocional e ético: ignorar o porquê de os dez mil caírem para celebrar que “eu não fui atingido”.

No fim, o versículo não é apenas sobre proteção. É um espelho. Ele nos força a perguntar: que tipo de fé é essa que consegue olhar para o lado, ver o sofrimento alheio e seguir em frente sem se abalar?

Talvez a verdadeira coragem não esteja em se sentir invulnerável, mas em se perguntar, com os pés no chão: “Por que eles caíram… e eu, não?” E aí, sim, começa uma reflexão mais profunda — e mais humana.

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