domingo, 6 de novembro de 2016

Os fascistinhas e seus padrinhos

Barão Vermelho. Frejat e Cazuza dão um show no Maracanã: banda foi uma das atrações na festa de chegada de Papai Noel em 1984 (Foto: Jorge Marinho / Arquivo Agência O Globo, 02/12/1984

Ideologia…eu quero uma pra viver!, entoou Cazuza em 1988, precisos sete anos antes que Herbert Vianna exaltasse um Lula avesso aos trezentos picaretas com anel de doutor. Claro, agora resta banal distinguir o visionário do iludido, mas nunca foi tão contemporâneo lamentar o êxito do primeiro.
Aliás, se Agenor de Miranda Araújo Neto ainda estivesse disponível, quase três décadas depois a pergunta não poderia ser outra: em comparação à turba que hoje invade escolas, impedindo na marra quem deseja estudar ou prestar exames importantes, a juventude de então era mais ou menos manipulável?
O questionamento não deixaria de ser legítimo — já extrapolou todos os limites esse absolutismo dito bem-intencionado, na prática avalista de crimes para fazer valer uma plataforma política —, porém seria igualmente perigoso.
Risco, não pela constatação em si, óbvia, de que falta maturidade e estofo aos imbecilizados para compreender a gravidade do momento, mas pelo paternalismo embutido na pergunta. Como se, apesar de capazes na hora de prejudicar a sociedade, e atentos quando se trata de alardear a própria consciência, não fossem responsáveis por seus atos.
Pois, sim, são responsáveis.
O que não exime de culpa seus padrinhos.
Digo, desde o assassinato de Santiago Andrade, abundam na mídia análises empapadas de ideologia para legitimar todo e qualquer protesto — cito o trágico episódio apenas para determinar um momento de fácil lembrança, na verdade este movimento não é nada recente.
Mas que legitimidade é essa, me pergunto, e devem se perguntar os pais que ontem tiveram seus filhos impedidos de fazer o ENEM, com o poder de chancelar superdireitos a um grupo específico de cidadãos?
Dia desses cheguei a ler, vejam só, a triste conclusão de que resta ao governo negociar. Mas negociar com quem ignora o diálogo e os processos democráticas? Com quem simplesmente não aceita um ajuste vital para o país, cuja aprovação segue dentro do trâmite estabelecido pela Constituição?
Lamento, protestos são válidos, e não só válidos como fundamentais para um saudável condicionamento da democracia, entretanto não podem ser usados como argumento quando a estratégia, claramente, passa longe da transigência. Não quando, sequestram o direito alheio, ao tomarem avenidas, estradas, escolas e fazendas, condicionando-o ao aceite coletivo de seus caprichos pela sociedade.
Para não dizer que o desgosto é completo, as urnas deixaram claro: a grande maioria dos brasileiros já identificou e rejeitou esse modus operandi raivoso e autoritário, tão típico da nossa esquerda. A torcida, agora, é para que o governo use este recado a seu favor, e não ceda campo para quem só pensa em furar a bola.
Os meus inimigos estão no poder, lamentava Cazuza, ignorando a própria sorte.
Os meus sempre estiveram.

Por Mario Vitor Rodrigues – Blog do Noblat
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