segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Repente do Senador enganado pelo capeta



Artista pernambucano declama mensagem que muitos gostariam de destinar a políticos sem apego ao bem público. Poema concorreu a prêmio paraibano de literatura de cordel
Há quem veja poesia no ato de ir às urnas. Outros desdenham do clichê “festa da democracia” – que, aliás, rima com poesia. Democracia essa que, a despeito de todas as suas imperfeições, permite que visões múltiplas sobre o mesmo tema sejam livremente manifestadas, compartilhadas. Em seu longo – e, por vezes, tortuoso – processo de aperfeiçoamento, nosso regime democrático admite tudo, menos ameaças à liberdade. Ameaças que, por conceito e essência, são a ausência absoluta do lirismo.
Transcorrido um mês e pouco desde o fim das eleições, o Congresso em Foco aproveita o domingo de quase nula atividade política em Brasília para exaltar a arte de um pernambucano que, nascido no longínquo município de Iguaracy, faz de sua arte um exemplo eloquente de como pode ser bela a criação em um ambiente livre de sombras. Se, nos anos de chumbo (1964-1985), artistas como Chico Buarque e Geraldo Vandré tinham de camuflar suas mensagens de insurreição nas entrelinhas de seus versos, hoje nomes como Maviael Melo, o poeta, musicista e compositor acima mencionado, reverberam rumo à eternidade os sons da alma transbordando verve.
No vídeo abaixo, Maviael faz de um poema de cordel a mensagem que todo brasileiro honesto gostaria de destinar a políticos sem apego à decência. E o faz por meio da inteligência, do humor afiado, valendo-se do mais sofisticado “olhar de cronista”. Ao participar do programa de Rolando Boldrin – do saudoso “Som Brasil” (TV Globo) – na TV Cultura, Maviael escuta o apresentador falar sobre “uns improvisos” a respeito de “um certo senador”. Era a senha para Maviael arrebatar a plateia com seu poema “Campanha eleitoral”, em que o parlamentar em questão, inominado, prova do próprio veneno ao escolher entre céu e inferno.
“O senador do estado passou dessa pra melhor / Ou pra outra bem pior – eu vou relatar o passado / Chegando o pobre coitado na porta do firmamento / São Pedro disse: ‘Um momento! Tenha calma, cidadão: faça aqui sua opção e assine o requerimento / Pois aqui tem governia, tudo está no seu lugar / E você vai optar onde quer passar o dia / Depois, com democracia, me dará sua resposta, fazendo a sua proposta de ir pra o céu ou pro inferno / Viver de túnica, de terno, do jeito que você gosta!”, diz a introdução da prosa em verso.
Bem, o resto é de se encantar – se você já viu o vídeo, faça o favor de mostrar a quem você gosta e que ainda não viu. São apenas cerca de três minutos de vídeo. O poema, diz Maviael, concorreu a um prêmio de literatura de cordel, em 2005, na Paraíba. E, mesmo tendo passado tanto tempo desde sua criação, merece ser eternizado. No vídeo abaixo, que poderia ser transmitido nos plenários da Câmara e do Senado em todo início de legislatura (#ficaadica), o pacato nordestino se engrandece diante da pequenez de certas práticas.

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