segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O milagre das cartas pode baixar o preço dos três manuscritos que Lula desenhou em 70 anos


Em julho de 2010, deslumbrado com pesquisas que conferiam ao presidente da República o título de campeão mundial de popularidade, Luis Fernando Verissimo tornou a mostrar-se um mestre na arte de escrever de joelhos. “Acho que os historiadores do futuro terão dificuldade em entender o contraste entre essa quase unânime reprovação do Lula pela grande imprensa e sua também descomunal aprovação popular”, agachou-se. “O que vai se desgastar com isto é a ideia da grande imprensa como formadora de opinião”.
Passados pouco mais de seis anos, o que os historiadores do futuro terão dificuldade em entender é o contraste entre a quase unânime vassalagem prestada a Lula por “intelectuais e artistas” e a também descomunal reprovação dos brasileiros ao chefe do maior esquema corrupto da história. O que vai se desgastar com isso é a ideia de que todo escritor profissional é capaz de identificar um analfabeto funcional disfarçado de guia genial dos povos.
O mais bisonho dos inscritos no Enem ficará espantado se souber que Lula produziu três manuscritos em 70 anos. E qualquer reprovado com louvor na prova de redação se imaginará uma sumidade em língua portuguesa depois de apresentado ao conteúdo dos documentos que escancaram a cabeça de um foragido do sistema de ensino. Nos oito anos em que governou o Brasil, o presidente que odeia vogais e consoantes escreveu exatamente 19 palavras, agrupadas na mesma folha de papel. Confira a reprodução do segundo manuscrito de Lula, desenhado em dezembro de 2005:
As anotações no pedaço de papel publicado na primeira página do Globo se dividem em dois tópicos. O primeiro é um lembrete: “Tem demandas do Conselho que precisa ser discutido”. (Não é fácil juntar numa só frase um verbo inadequado, um erro de concordância e dois assassinatos do plural. Lula conseguiu). O item 2 informa que o chefe de governo acabou de receber uma notícia boa (“Pnad”) e duas ruins: “PIB – Zé Dirceu”. Os dedos de Lula encobrem parcialmente o nome do companheiro despejado meses antes da chefia da Casa Civil.


O terceiro manuscrito se materializaria em 28 de janeiro de 2011, no auditório da Universidade Federal de Viçosa, interior de Minas Gerais. Depois de entregar o título de doutor honoris causa ao ex-presidente que nunca leu um livro nem aprendeu a escrever, a reitora Nilda Soares convidou-o a assinar o Livro de Ouro que registra a passagem de visitantes ilustres. Por achar que uma assinatura era pouco, Lula retribuiu a homenagem com o documento histórico acima reproduzido. Segue-se a transcrição, sem correções nem retoques:
“Para os amigos e amigas da UFV com agradecimento pelo trabalho prestado ao povo brasileiro com educação de qualidade, garantindo ao povo brasileiro a certeza de bons profissionais para atender o desenvolvimento do nosso querido Brasil. Abraços do amigo Lula. Sem medo de ser feliz”.
Abstraídas as redundâncias, a aversão a vírgulas e a profundidade da mensagem (tão rasa que, na imagem de Nelson Rodrigues, uma formiga poderia atravessá-la com água pelas canelas), a platitude produzida com 45 palavras merece ser elevada à categoria de texto literário se confrontada com o manuscrito de estreia, abaixo reproduzido:

“Ao querido Dogival com a esperança que em um futuro bem proximo possa compreender a nossa luta. Abraço do titio Lula. Cubatão 07/11/81″
Ao rabiscar as 22 palavras, Lula fez mais que cumprimentar o sobrinho aniversariante. Também fuzilou uma preposição, degolou três vírgulas, demitiu um acento agudo e confirmou que quem foge da escola tem letra de calouro de curso de alfabetização. Não é pouca coisa - mas não é tudo: como os outros dois, o manuscrito parido em Cubatão é uma ararinha-azul da caligrafia, uma preciosidade que nos leilões do futuro será disputada a socos e pontapés por colecionadores de raridades.
Tomara que Dogival tenha guardado o pedaço de papel. É provável que ele se sinta injustiçado ao saber que o tio andou fazendo para ajudar o primo Taiguara Rodrigues. Com o patrocínio da Odebrecht, o camelô de empreiteira transformou um instalador de vidraças em empresário internacional e, com meia dúzia de negociatas, fez do sobrinho pobretão um milionário. É improvável que Dogival vá tão longe quanto Taiguara. Mas a venda do manuscrito só não lhe garantirá uma velhice sem preocupações financeiras se o senador Marcelo Crivella disse a verdade no vídeo em que jura ter visto o torturador do idioma escrevendo cartas de próprio punho.

Por Augusto Nunes

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