domingo, 11 de setembro de 2016

Retrato do Desconhecido


Ele tinha uns ombros estreitos, e a sua voz era tímida, 
Voz de um homem perdido no mundo, 
Voz de quem foi abandonado pelas esperanças, 
Voz de quem não manda nunca, 
Voz que não pergunta, 
Voz que não chama, 
Voz de obediência e de resposta, 
Voz de queixa, nascida das amarguras íntimas, 
Dos sonhos desfeitos e das pobrezas escondidas.
Ombros de quem não sabe caminhar, 
Ombros de quem não desdenha nem luta, 
Ombros de pobre - de quem se esconde, 
Ombros tristes como os cabelos de uma criança morta, 
Ombros sem sol, sem força, ombros tímidos, 
De quem teme a estrada e o destino.
Ombros de quem não triunfará na luta inútil do mundo: 
Ombros nascidos para o descanso das tábuas de um caixão, 
Ombros de quem é sempre um Desconhecido, 
De quem não tem casa, nem Natal, nem festas; 
Ombros cuja contemplação provoca as últimas lágrimas...

Augusto Frederico Schmidt
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