sexta-feira, 16 de setembro de 2016

E Nego morreu


Nego, um cão labrador era o mais amado companheiro de Dilma no Palácio da Alvorada. Era também devoto, fiel e simpático. Mas não lhe acompanhou na viagem a Porto Alegre. Porque foi assassinado (segundo os coxinhas). Ou sacrificado (segundo o PT). Para mim, tanto faz. A morte, palavras de Alberto Caeiro (“Ficções de Interlúdio”), é mesmo o desprezo do Universo por nós. A explicação oficial, desprovida de qualquer emoção, é que “estava muito velho e doente”. Ou talvez tenha sido apenas algo mais prático. Seco. Direto. Só para não dar trabalho na mudança. Seja como for, os funcionários que cuidavam dele ficaram consternados – porque “Nego tinha condições de sobrevida digna, até sua morte natural”.
É pena. Por se tratar de um amigo do homem. O melhor deles, segundo muitos. Cão não trai. Não delata. Gosta só por gostar. Sem outros interesses. E jamais abandona seu dono. Por mais velho ou doente que esteja esse dono. A recíproca não é verdadeira. Pelo menos em palácios brasilienses. Das notícias dos últimos dias, essa me consternou mais que todas. Sentimentalismo fora de moda, dirão muitos. E talvez seja, quem sabe? Ou sinal dos tempos. Nossas crianças, de manhã, trocam o futebol com vizinhos por encontros com amigos distantes que nunca verão. Ocupam suas tardes perseguindo seres imaginários. E gastam suas noites presos em pequenos quartos de apartamento. Presos em seus computadores. Nos elevadores, ninguém mais fala com ninguém. Todos olham só para seus celulares. Estamos perdendo humanidade. Temo que estejamos construindo, tijolo por tijolo, uma Democracia da Solidão. Até no Alvorada.
O PT deve estar lamentando não poder mais contar com os serviços de Duda Mendonça ou João Santana. Os dois, coitados, nas mãos de Moro – parceiros que foram, por vias transversas, na roubalheira da Petrobrás. É que, continuassem assessorando Dilma, e jamais permitiriam essa morte. Com certeza sugeririam que melhor seria deixar o cão por lá. Explicando ter sido aquele palácio, por toda vida, sua casa.
Imaginei, nesse caso, o que aconteceria se Temer tivesse que decidir qual seria o destino de Nego. Se faria, então, o que Dilma fez – até poderia, sem maiores constrangimentos, dado nunca terem convivido. Pior ainda se tivesse a coragem de dar, para o fato, a explicação que ela deu. Sem alma. Gélida. Inacreditável. “Estava muito velho e doente”. Assim fosse e, dia seguinte, veríamos nos jornais declarações previsíveis – de PT, CUT, MST e blogs que, durante tempo demais, engordaram com a grana fácil do governo.  “Temer não gosta de velhos”. “Temer abandona os doentes ao léu”. “Temer prenuncia sua reforma na previdência – vai ser contra velhos e doentes”. “Temer, racista, não gosta de Nego”. “O cão morreu por conta do nome; que, se chamasse Branco, e seria poupado”. Por aí.

Conclusão, maior prejudicado nisso tudo foi o pobre Nego. Dilma está bem. E corre até o risco de ser candidata. Se quiser. Ou se o Supremo deixar. Nego não, que foi assassinado (ou sacrificado). Como dizia Pessoa (“Em busca de Beleza”), A vida é só o esperar morrer. Coitado de Nego. Coitado de nós.

Por José Paulo Cavalcanti Filho
Postar um comentário