sexta-feira, 12 de agosto de 2016

PT, entre a oposição à moda de Lula ou a radicalização proposta por Dilma


Por falta de outro ou por de fato só acreditar neste, a presidente afastada Dilma Rousseff já escolheu seu caminho antes mesmo de ser cassada: insistir com a defesa da ideia de que a guerrilheira que pegou em armas para derrubar a ditadura militar, a política duas vezes eleita presidente da República, foi vítima de um golpe comandado pelas forças mais conservadoras do país.
A ser assim, só lhe resta fazer dura oposição ao governo que suceder ao seu, sem admitir qualquer tipo de entendimento ou de convivência estável com ele. As forças de esquerda que pensem da mesma forma poderão segui-la. Ou atuarem, sem segui-la, na mesma direção. A Dilma radical do passado, despojada da maquiagem das campanhas que a tornaram palatável para parte do eleitorado de centro, está de volta. E se oferece como referência.
Sem dizê-lo diretamente, a jararaca é Dilma, não Lula que se comparou a uma no dia em que foi conduzido para depor aos procuradores da Lava-Jato. Naquele dia, como costuma fazer sempre que se vê acuado ou desafiado, Lula correu para o colo do PT e falou grosso. Desde então moderou sua fala para não sofrer retaliações, mas também para abrir canais sigilosos de negociação com o governo do presidente interino Michel Temer.
A negociação interessa a Lula não mais para que ele possa sonhar com um eventual retorno à presidência, a essa altura improvável. Nem ele acredita que isso possa acontecer. Mas sem negociar uma trégua disfarçada, ele se arrisca a acabar preso. Ou a ver seu partido prescrito por ter cometido crimes ou se beneficiado deles. Lula terá pela frente a tarefa de convencer o PT de que seu lado é melhor do que o lado de Dilma.
Não que dentro do partido viva alma se imagine a reboque da ex-presidente. Dilma é carta fora do baralho. Mas a radicalização que ela propõe é uma alternativa que seduz correntes expressivas do PT. São aquelas que dizem que o partido se rendeu aos defeitos do PMDB, deixando-se contaminar por eles. E que chegou afinal a hora de resgatar suas características originais, de reconciliar-se com o PT puro, imaculado do início.

Isso poderá ser desejável até como uma contribuição para melhorar a prática política entre nós, tão degradada. Mas será possível?
Por Ricardo Noblat

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