domingo, 7 de agosto de 2016

A cartada que Dilma não dará


Em meados de junho, Dilma Rousseff fez chegar à imprensa a decisão de divulgar uma carta aos brasileiros, a exemplo do que fizera o ex Lula, com sucesso, em 2002. Junho acabou sem a missiva. Veio julho, nada. Agosto chegou e a tal carta, que pretendia ser o instrumento decisivo de defesa da presidente afastada, se tornou símbolo da discórdia entre os poucos aliados que ela ainda tem. Entre ela e o PT, entre ela e a realidade.
A ideia inicial era que a carta fosse elaborada a partir das aspirações de movimentos sociais e setores da esquerda, conforme proclamavam auxiliares da presidente afastada. Imaginavam – ou fingiam imaginar – que funcionaria como um ponto de mobilização, aglutinando forças em torno de Dilma.
Na época, a mídia aliada, tendo à frente o site Brasil247, anunciava em letras garrafais que o documento traria “propostas concretas para as áreas de Educação, Saúde e a continuação plena de programas como o Minha Casa, Minha Vida”.  Além de mudanças na área econômica, que levariam em conta os “desejos da sociedade, como novas regras na Previdência devidamente discutidas com os trabalhadores, e a reforma política”.
Se esse conteúdo entrou no primeiro esboço, nada ou pouco dele constará da redação final, que abriga mais dúvidas do que certezas.
A versão mais recente, que Dilma pretende ter como definitiva, é o exemplo acabado do quanto a sua visão se turvou. Não consegue mais enxergar um único palmo à sua frente, se é que algum dia conseguiu.
O ponto central – a convocação de plebiscito para novas eleições – foi publicamente rechaçado pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, que, melhor do que qualquer oposicionista, demostrou o quanto a proposta é inviável e inexequível. Um acesso de sinceridade, no qual só faltou denunciar o oportunismo barato de falar de eleições-já para agradar a galera que não quer nem Dilma nem Temer.
A insistência na ladainha do “golpe parlamentar” também desune. Há os que defendem o argumento como eixo da carta, outros o repudiam. Temem que sua utilização no plenário possa ferir o brio dos senadores.
Dilma está só. Nas ruas, nem os poucos manifestantes arrebanhados por movimentos de esquerda – foram cerca de 300 na praia de Copacabana na sexta-feira, dia da abertura dos Jogos Olímpicos – conseguem defendê-la. Não se vê um “fica Dilma”. Ninguém reivindica a permanência dela no Planalto. Só o “fora Temer” os une.
Exausta, Dilma repisa na tese da ilegitimidade do presidente em exercício, que não teria recebido os 54 milhões de votos a ela conferidos. Uma tolice.
A mesma conveniência que faz Dilma repudiar Temer determinou que ela o incensasse quando precisava do apoio dele. Em 2014, na convenção que reeditou a aliança PT-PMDB, ela se derreteu em loas a Temer. Destacou “o papel inestimável” dele na remoção de obstáculos e foi ainda mais longe: “Eu acredito que ele sabe aproximar as pessoas, ele sabe unir e desarmar os espíritos". Sobre o PMDB que hoje ela escorraça, disse que o partido tinha ajudado a melhorar os programas de seu governo, reservando à sigla os vivas com os quais costumava – instruída pelo marqueteiro João Santana – encerrar os seus discursos: "Viva o PMDB e viva a aliança".
Dois meses antes, fora a vez de Lula enaltecer o líder peemedebista. Em uma mensagem lida por Rui Falcão na convenção que reconduziu Temer à presidência nacional do PMDB, Lula elogiou a parceria Dilma-Temer, aliança que o ex costurou com empenho, mesmo contra a vontade de parcela de seu partido.
Agora, a carta de Dilma só deverá ser formalizada no final de agosto ou no início de setembro. Chegou a ser anunciada para a próxima quarta-feira, dia 10, mas o mais provável é que fique cozendo no caldo ácido do dissenso até à véspera da votação final do impeachment.
Embora saiba que nada alterará a contagem das favas quanto ao seu destino, Dilma afirma que o documento “dá um caminho de uma transição, de uma saída para o país”, e que ela vai “vencer no Senado e na história”. Um tento que Dilma até poderia alcançar, se, em um lapso de grandeza e espírito público, abreviasse a agonia do país com o anúncio de sua renúncia.

Seria uma cartada e tanto.
Por Mary Zaidan - Blog do Noblat
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