terça-feira, 19 de julho de 2016

Sangue no azul do mar


Morrer de doença, mesmo súbita, abre chance de algum consolo. Fazer o quê? Mas ter a vida ceifada por um semelhante, que decidiu eliminá-la, é inaceitável, sobretudo quando não há situação de confronto aberto, direto. O chamado “terror” tem essa característica abominável: é covarde, traiçoeiro, perverso.
Sempre fico chocado quando imagino pessoas felizes, celebrando a existência, e, de repente, explode sua negação, vem a ruptura brutal da morte. Em casas de festas, em praças públicas, em qualquer lugar de encontro. Não está certo! Quando crianças e jovens são atingidos, então, o brutal torna-se ainda mais bárbaro. Não tem explicação!
Taher Harzi, um trabalhador tunisiano aposentado, pai de dois militantes do Estado Islâmico mortos sob ataque aéreo, diz que os assassinatos de Nice são compreensíveis: “Quando eles bombardeiam a Síria e o Iraque, não poupam mulheres nem crianças. Temos o direito de fazer o mesmo. O profeta Maomé diz que se uma terra muçulmana é invadida, é nosso dever lutar. As leis de Alá determinam que não machuquemos quem não nos machuca. Nunca fizemos nada contra o Brasil, mas a França, os EUA... eles começaram!” (Folha de São Paulo, 17/7/16).
Não sei o que Harzi diria sobre mãe e filhinha brasileiras mortas em Nice, ou de outros cidadãos de países que não estão na coalizão contra o EI. A verdade é que o “terror” como método de ação política é covarde, traiçoeiro, perverso e... indiscriminado. Vitima sempre inocentes. Sim, ele recruta muitos inconformados – e é saudável a reação crítica a qualquer (des)ordem excludente. Só que, movidos a ódio, esses “rebeldes” escolhem alvos indefesos para realizar sua “justiça” e impor medo. Qualquer arma vale para matar os inimigos, até caminhão em zigue-zague deixando rastro de destruição. Como admitir um Deus que abençoe tamanha crueldade?
A supremacia militar do Ocidente não resolverá os crescentes conflitos de culturas, territórios, valores e modos de vida. Ainda que possa reduzir, como é necessário, essas agressões letais. Por absurdo que pareça a Trumps e Le Pens , talvez a espantosa fala do muçulmano fundamentalista Harzi nos traga um ponto de partida, um tênue traço de união: ele justifica os ataques criminosos como reação, como resposta. “Só machucamos quem nos machuca”.
Compreender as razões de quem se sente “machucado” pode abrir algum caminho junto àqueles que, ainda segundo o salafista, “são pessoas que rezam, temem a Deus e são controladas”. Aos nossos olhos estão longe de sê-lo, mas apenas pregar que os que eliminam têm que ser eliminados não nos conduzirá às raízes da insanidade política reinante. Como dizia Gandhi, “na linha do olho por olho, em breve tempo estaremos todos cegos”. Além do mais, há profundas divisões no mundo muçulmano, e seguidores do Islã também são vítimas de atentados covardes – as mais numerosas, por (trágico) sinal.

Por Chico Alencar – Blog do Noblat
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