sexta-feira, 22 de julho de 2016

O sacrificio de Isaque


Inquisição, Cruzadas, caça às bruxas... Esqueçam tudo isso! Para negar à religião a pretensão de ser o local privilegiado da moral, bem como ter a última palavra sobre questões dessa natureza, nenhum ateu precisa invocar esses episódios sangrentos que a história celebrizou. O drama de Abraão e Isaque já é suficiente para nos ajudar a entender por que uma moral baseada na autoridade divina é um perigo para todos nós.
Relata o Gênesis que Jeová, sempre tão ávido de homenagens e salamaleques, ordenou certo dia a Abraão que sacrificasse Isaque, seu único filho, como prova de lealdade. Qualquer pai decente, ao ouvir ordem tão abjeta, mandaria Deus para aquele lugar. Mas Abraão não mandou, e é preciso entender o porquê.
O problema aqui tem a ver com o primeiro mandamento, aquele que prescreve amar Deus sobre todas as coisas. A partir do instante em que se inventa um Deus, o compromisso fundamental de um homem já não é mais com sua família, com seus filhos ou com a humanidade, mas com o produto de sua loucura alojado no céu. A satisfação da deidade torna-se mais importante do que a promoção do nosso bem-estar. Os interesses dela pairam acima dos nossos e, se lhe for agradável a imolação do nosso unigênito, não vacilaremos em fazê-lo. É o que mostra o relato genésico do sacrifício de Isaque. O que há importante nele não é a intervenção salvadora de Jeová no último instante, mas a disposição de Abraão de levar adiante a ordem recebida. Ele teria ido até o fim com um sorriso no rosto...
Eis aí o grande perigo da religião. Uma moral baseada na autoridade divina só não é um problema quando o que é bom para Deus coincide com o que é bom para nós. Mas isso, como tragicamente sabemos, nem sempre acontece. Com frequência, o que é bom para Deus é prejudicial para nós. Quando um muçulmano decapita um infiel, talvez Alá dê cambalhotas de alegria no céu, mas, para a espécie humana, isso é uma desgraça.
Imagino que a essa altura um cristão deva estar objetando: "Mas o meu Deus só prega coisas boas, como a caridade, o amor ao próximo, o perdão, a compaixão etc." Bem, isso não é totalmente verdadeiro, como provam as passagens bíblicas que sustentam o discurso de ódio contra os homossexuais pregado nas igrejas. Mas, mesmo que fosse verdadeiro, ainda haveria uma armadilha: a moral ficaria condicionada às flutuações imprevisíveis do humor divino. Se amanhã Deus acordar com o pé esquerdo e ordenar aos cristãos que exterminem toda a humanidade, com exceção deles próprios, quem pode nos garantir que eles não fariam isso? Se Abraão, para agradar a Deus, estava disposto a imolar o próprio filho, por que eles não nos matariam, a nós ateus? No fundo, nenhum cristão pode se considerar imune à possibilidade de vir a fazer uma coisa dessas; para isso, bastaria que Deus lhe desse uma ordem.
Alguns autores sustentam que a palavra religião vem do verbo latim religare, que quer dizer religar-se – no caso, religar-se com o divino. Este é um conceito importante, nem tanto pelo que diz, mas pelo que deixa de dizer. Religar-se com o divino tem como inevitável contraparte o desligar-se da humanidade, o perder o laço que nos une aos nossos iguais. A crença em Deus destrói o vínculo fraterno que deveria haver entre nós e, como resultado, nos converte numa raça de suicidas. De exemplos desse esquecimento da nossa identidade a história nos dá um registro abundante, que nunca para de ser atualizado. Uma boa parte dos nossos males atuais deriva do fato de que os deuses continuam pedindo a cabeça dos Isaques, mas, para a nossa infelicidade, não intervêm no final para dizer: “Era só uma brincadeira”. Estamos cercados de fanáticos que acreditam ter mandamento divino para discriminar, perseguir e matar todos aqueles a quem o seu deus qualifica de infiéis.


Texto de Rodrigo César Dias

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