segunda-feira, 27 de junho de 2016

O dia que me tornei invisível


Já não sei em que data estamos.
Nessa casa não há folhinhas e, em minha memória tudo esta revolto.
As coisas antigas foram desaparecendo, e eu também fui apagando sem que ninguém se desse conta.

Quando a família cresceu, me trocaram de quarto.
Depois, me passaram a outro menor ainda acompanhada de minhas netas. Agora ocupo a edícula no quintal de traz.

Prometeram-me trocar o vidro quebrado da janela, mas se esqueceram. E as noites, por ali sopra um ventinho gelado que aumenta minhas dores reumáticas.

Um dia à tarde me dei conta que minha voz desapareceu.
Quando falo, meus filhos e netos não me respondem.
Conversam sem olhar para mim, como se eu não estivesse com eles.
Às vezes, digo algo, acreditando que apreciarão meus conselhos.
Mas não me olham, não me respondem. Então,  me retiro para o meu canto antes de terminar a caneca de café.

O faço para que compreendam que estou enojada, para que venham procurar-me e me peçam perdão... Mas ninguém vem. No dia seguinte lhes disse:
- Quando eu morrer, então sim, vão sentir minha falta.
E meu neto perguntou:
- Estás viva, vovó? (rindo-se)

Estive três dias chorando em meu quarto, até que numa certa manhã, um dos meninos entrou a jogar umas rodas velhas...

Nem o bom dia me deu.
Foi então quando me convenci de que sou invisível.
Uma vez, os meninos vieram dizer-me que no dia seguinte iríamos todos ao campo. Fiquei muito feliz.
Fazia tanto tempo que não saia!
Fui a primeira a levantar. Quis arrumar as coisas com calma.
Nós, os velhos tardamos muito, assim, me ajeitei a tempo para não atrasa-los.
Em pouco tempo, todos entravam e saiam da casa correndo, jogando bolsas e brinquedos no carro.

Já estava pronta e muito alegre.
Parei na porta e fiquei esperando.
Quando se foram, compreendi que não estava convidada.
Talvez não coubesse no carro.
Senti como meu coração se encolhia, o queixo me tremia como alguém que tinha vontade de chorar.
Eu os entendo, São jovens, Riem, sonham, se abraçam, se beijam.
E eu... Antes beijava os meninos, me agradava tê-los nos braços, como se fossem meus. E, até cantava canções de berço que havia esquecido, mas um dia...

Minha neta acabava de ter um bebê.
Me disse que não era bom que os velhos beijassem aos meninos por questões de saúde.
Desde então, não me aproximei mais deles.
Tenho tanto medo de contagiá-los!
Eu os bendigo a todos e os perdoo, porque... Que culpa eles têm de que eu tenha me tornado invisível?

Texto original “El dia que me volvi invisible”
Autora: Silvia Castillejon Peral
Cidade do México 2002 
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